11 septembre 2023

Vestígio do tempo

Um dia, atravessando uma estrada arborizada, de asfalto liso feito pista de avião, dei pela falta da garrafa térmica. Dentro do carro, entre o condutor e o passageiro, dois porta-copos comportavam uma espécie de imitação de um café americano famoso, feitos de plástico. Inúmeras vezes bocas tinham sido queimadas com o líquido quente que saía do buraquinho. Mas nada de respingos.

Naquela época cada garrafa térmica tinha sua particularidade: algumas gordas, algumas altas, com torneira, com bico retratável, ou feitas simplesmente com uma tampa em rosca. Tomar um café na estrada implicava necessariamente movimentos cuidadosos, e sobretudo a interação entre o condutor e o co-piloto. Um servia o café, o outro recuperava a xícara de plástico com cuidado. A fumaça subia, o cheiro do café tomava o carro.

Mas a garrafa térmica, como inúmeros outros objetos produzidos no começo do século XX, não correspondia à fúria consumista do périodo futuro. Um “cup” individual representa, num só carro, três objetos a mais do que uma garrafa térmica. O pequeno porém é o lugar para colocá-los no carro, às vezes feitos de apenas dois porta-copos. Mas aí está a sacada: quatro “cups” dão lugar à novas opções, um porta copos trazeiro, um em cada porta, ou até mesmo seis lugares entre o piloto e os passageiros, em se tratando desses carros imensos que ocupam a metade da rua quando estacionados.

Nesse futuro desmedido a garrafa térmica não tinha a menor chance.    


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