10 juin 2018


Essa noite
dormi feito pedra.

Pedra no meio do caminho.
Nem liguei.
Só dormi.

Deixei de ser eu mesma,
feito pedra.
Que descaso.
Que descanso.

Cheirava minério,
terra, ou outro cheiro da natureza.
Mas não senti nada,
feito pedra.

Num dado momento,
(inalcançável, uma fagulha em bilhões e bilhões de anos)
dormindo feito pedra,
imóvel feito pedra,
fiquei feito morta.

Que descuido.
Que descanso.

02 juin 2018


Gostaria de contar o mundo, maior do que ele parece. Porque aquilo que aparece, fatos vividos pelos outros, por mim, não passam de um pedaço do mundo. Ele também contém possibilidades : esses elementos inexistentes escondidos nas cabeças e nas almas. As coisas estão aí, e ainda não estão. As coisas são vividas, ou não. É disso que trata o mundo.
Me interessa saber como tomam forma. As coisas aí já postas, e as outras.
Traços de desenho. Imagens feitas de cores. Frequências sonoras, oscilação das moléculas de ar. Corpos físicos, quentes. Movimentos de maquinário. Os 0 e os 1. Intuições etéreas. Impressões passageiras, ou fossilizadas na rocha. Palavras.  
O fio da escrita : símbolos seguidos uns dos outros, dando forma. Se não é extraordinário... Leio “vagarosamente”; uma languidez agradável escorrega pelos meus braços e pernas, pelos meus pêlos, até a ponta dos fios do cabelo. Leio “estelar”; meteóros se entrechocam num espaço vazio, silencioso, a velocidade da luz avança o tempo de maneira inalcançável, o buraco negro acelera o movimento, o começo e o fim. Leio “iminência”; a realidade é essa que estou vendo, sem poder tê-la nas mãos. Leio “escrever”; empilho plumas umas sob as outras, tentando manter um equilíbrio frágil. O que exatamente eu tinha pra dizer?        

24 avril 2018

Contrair e dilatar


Tendemos feito pêndulo, entre a parte mais escondida do mundo, e a transcendência. Assim vai cada existência, empurrando e recuando os limites da subjetividade. Algumas vezes, a experiência da realidade se transforma num ponto, minúsculo, mas repleto. Esse único ponto, ainda que provoque uma imagem melancólica, se compõe de sensações e pensamentos aparentados ao infinito. Nele reside a energia necessária para criar um universo. Outras vezes, a subjetividade parece não ter mais limites, nem forma. Ela transborda, se espalha e se mistura às outras coisas, compondo uma só matéria. Mas na maior parte do tempo, procuramos estar alí onde não estamos. Expandindo e recuando. Alí, não há reiteração, ou sequência. Nem tão pouco evolução. Nenhuma regra vem confortar o espaço individual e único em sua dinâmica, algo frenética, animada pela obrigação ou hábito de estar em vida. O único elemento de explicação é a experiência que faz daquilo que costumou chamar de realidade.     

29 mars 2018

O par de óculos


Esse objeto controverso foi o estopim do meu envelhecimento. Foi assim que soube que tinha passado para a penúltima etapa da vida. O fato de ter que usar óculos pela primeira vez, depois de quarenta e quatro anos. Isso, e minhas bochechas que murchavam feito bexiga vazia, depois da festa. Meu rosto tentava coincidir com os ossos que lhe davam forma. “Meu corpo, aos poucos, se aproxima da sua essência”, pensei. Tomava outra direção. Procurava o começo, quando ainda nem tinha pele nem pêlos. Meus olhos estavam usados. Já não enfrentavam mais a realidade como antes. Como se minha visão, junto à minha alma, tivessem se fragilizado, cegados pela lucidez.
Um par de óculos para olhos cansados... Talvez me permitissem enxergar as coisas por outro lado? “E se esse for o caso”, pensei, “que sejam menos exatos. Que tornem as coisas mais fluídas, sem tanta nitidez. Que no lugar da fissura, eu veja o vão, e ao invés do desgaste, uma evolução. Talvez os rostos antigos e apagados reapareçam. Se também usarem óculos, pode até ser que me revejam sem rugas, com a descontração e a coragem de vinte anos atrás. Gostaria de enxergar a paisagem como uma pintura impressionista, antes que se torne abstrata, ou monocroma. E as pessoas, pelo melhor ângulo”.
Como os olhos, minhas pálpebras também se cansavam. Iam fechando, questão de milímetros. Isso passou a me dar uma expressão de acuidade, onde havia somente ofuscamento diante de tanto realismo. Deve ter-me gasto a vista, o realismo. “Entre os 40 e os 60 é normal” me disse, inocentemente, o oftalmologista. Então, além dos compromissos, das perdas, da inevitável melancolia, também os olhos se perdiam entre os 40 e os 60.
Não me importava lançar mão de subterfúgio. O objeto me agradava. Mais nova, sonhara em tê-los. Mas a verdade é que já não apareceria como antes. À sensualidade misturada com inteligência, substituiría-se a imagem da mulher de meia idade e meia vista.
Havia uma vantagem em envelhecer e tender, lentamente, àquilo que fui um dia. Era como se o tempo me desformatasse. Aos poucos, ia perdendo os automatismos da pessoa responsável que me obriguei a ser. Meus olhos, cansados daquilo que viam, tinham decidido observar a existência de outra maneira. Levavam meu corpo com eles. Davam cabo, sutilmente, da ordem. Talvez estivessem tomando o caminho da liberdade.

11 février 2018

Caiu sob os arbustos, feito calda de bolo
Feita de açucar e clara de ovo.
Amorteceu o ruído da vida, os pequenos problemas.
Soterrou os grandes.
Iluminou a noite, de maneira estranha
a realidade, como cenário de um souvenir de um lugar imaginado.

O poste olhava para as próprias mãos de trepadeira.
Envolto numa manta branca, parecia se arrepender,
“sentia muito”.

Noutros lugares, dava outros efeitos. 
As sombras imprimiam relevos nas paredes.  
A impressão de altitude.
A capacidade de diminuir o espaço.

As ruas e parques, feito cômodos atapetados de um castelo.
Só faltaram os escudos, as espadas, a corôa, e o unicórnio.    

Ou as travessas de uma cidade distante, de um país distante, de uma realidade ideal.

Escondeu toda a grama, o asfalto e os paralelepípedos.
Escondeu as coisas, as imperfeições.
Foram dois dias de felicidade pueril.

Até que na manhã seguinte
como nos contos
desapareceu.
Deixou uma atmosfera de humanidade à mostra
as estridências, o amor mal feito, os livros inacabados.

Uma enorme poça d’água, (per)feita pra se afogar.   

08 février 2018

Ultimamente, quando já não há mais pensamentos e sensações que me distraiam, me surge a palavra “deriva”.
Vejo um oceano plano, o céu todo branco ou todo azul,
e um pedaço de madeira balançando,
à deriva.

Algo aconteceu para que se encontre alí.
Mas a única coisa que vejo é o seu isolamento, e o fato de mover-se sem direção.
Segue, obedecendo forças naturais.

Ultimamente, me parece que tomo a forma do pedaço de madeira.
Sempre ouve uma razão para que eu me encontrasse no lugar onde estou.
Sem medir o espaço percorrido, continuei andando.

Daí, teve esse dia
olhei para trás e não reconheci a paisagem.


Nem pensei no miolo de pão. 

30 janvier 2018

Poema ao avô

Acordou, e ainda misturado ao lençol, se deu conta :
a idéia tinha se transformado em fato.
Tinha feito o seu caminho.
O seu olhar me parece triste,
mas não foi assim.
Olhou para o lençol branco, e viu uma confirmação do rumo que as coisas tomariam, a partir dalí.
Não foi de uma noite pra outra.
Nem porque se perdia na agonia.
Simplesmente, o tempo tinha passado.
Já de caminho tomado, levantou na manhã do seu último dia.
Fazia sol.
Ou a manhã tinha sido chuvosa?
Desceu para conversar com as orquídeas, como se quisesse prepará-las.
Talvez ficassem tristes com a imagem : um homem, de pé, com uma arma na mão.
Um homem que conheciam. Que lhes tinha tamanho apresso.
Mas as plantas não tem olhos, nem ouvidos. Nem perceberam o ocorrido.
Somente o estrondo produziu uma onda sonora, estremeceu as folhas e flores de maneira peculiar.

O meu avô ficou em mim, feito minúcia e irresignação japonesas. 

06 décembre 2017

Auto-sustentação

Assim funciona o meu instinto de sobrevivência. No momento seguinte ao drama, tento desesperadamente encaixar o acontecido na organização da vida. Numa névoa de anestesia, encontro argumentos, convergências, e me convenço de que o fato (que já começa a traçar um caminho dolorido na alma) completa a vivência. O drama faz parte da existência. Mas ao contrário da sabedoria popular, mais o tempo passa, e mais a dor torna-se pronunciada. A lógica do fato se desfaz aos poucos, como se eu desmanchasse uma blusa de lã. Apesar do conforto que me proporcionou durante um espaço de tempo, a sua forma não convém mais ao meu corpo, ao meu volume. E uma vez toda a blusa desfeita, o fio forma um emaranhado escuro no chão da alma. O fato mostra-se completamente desprovido de fantasia ou invenção. Aquilo à que me remete : o despropósito. A desrazão faz parte da existência. Fico eu com o monte de nós no chão. Não sei o que fazer dele, não posso mais carregá-lo, nem segurá-lo com as mãos. Fica alí, doendo dentro de mim durante um momento que parece não ter fim.

05 novembre 2017

Clarice impossível

Clarice. Me pergunto quantos são aqueles que realmente te entendem. Que te lêem como eu. Aqueles que conseguem ter acesso ao universo de Clarice. Eu sim. Eu adoro Clarice. Eu reivindico Clarice. É bonito falar em Clarice. É inteligente, intelectual. Todo mundo fala de Clarice. Mas de “Clarice”, assim, sem sobrenome, apenas os mais chegados. Aqueles que sabem que Clarice não é para qualquer um. Tem que ser iniciado, para entender os escritos de Clarice. Todo o seu mistério. Próximo, íntimo. Para poder discorrer sobre o conteúdo hermético, algo europeu de Clarice, é preciso tempo. Paciência. Não é para o primeiro estudante de Letras que acabou de tirar os olhos dos livros obrigatórios do vestibular. Tem que ter vivido para captar Clarice. Sobre o que fala Clarice? (hum... em duas linhas, devo resumir Clarice...). “Clarice expressa a metafísica da existência através da contingência; trata do despropósito ontológico do indivíduo arraigado na efemeridade”. Claro, Clarice é literatura, e toda literatura é feita para um leitor. Mas existe literatura e literatura. Cada um deve questionar a si próprio, de maneira sincera : “Clarice é para mim?”. Talvez não seja o caso. Porque Clarice é para poucos. E por essa razão, e porque sou um destes poucos, posso dizer “Clarice”, assim, sem sobrenome.

De certo existe uma pequena angústia. Um qualquer coisa de errado, quando leio Clarice. Nada que venha manchar o monumento. Tanto mistério. Tanta erudição. Como se as palavras lhe aparececem feito tromba d’água. Em termos literatos não há dúvidas. Mas quando penso naquela mulher, Joana, dizendo aquelas coisas... Que coisas! Nem na boca de um personagem! Joana me põe desconfortável. Me seguro em Clarice, na sua obra, na sua elegância. Mas Joana me persegue. Que desagrado. “A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto, como o que sinto se transforma lentamente no que digo...”. Como pode? Gosto do mistério de Clarice, quando o compreendo. Quando se encaixa nas gavetas da minha alma. Joana não se encaixa em lugar algum. Talvez Joana seja realmente aquilo que dizia dela a sua tia...

“A plenitude tournou-se dolorosa e pesada, e Joana era uma nuvem prestes a chover”. Que não venham os noviços (leigos, estudantes imprudentes, pseudo-críticos, ignaros de Clarice) justificar um tal personagem. Que não me digam “você não entende o que é um coração selvagem? Fire, walk with me...”. Eu conheço Clarice! Sou íntimo de Clarice, de seus recantos, posso chamá-la pelo nome. Não há nada a acrescentar ao que me diz Clarice...

“Desde aquele dia, Joana sentia as vozes, compreendia-as ou não as compreendia. Provavelmente no fim da vida, a cada timbre ouvido, uma onda de lembranças próprias subiria até a sua memória, ela diria : “quantas vozes eu tive...”. Um pensamento me vem à cabeça. Uma faísca queima lentamente a minha admiração. Algo insuspeito, insidioso. De repente me aparece claro feito raio. Não a minha Clarice... Aquela que cito quando, erudito, me escuto e me orgulho das minhas próprias palavras. Aquela que apenas alguns, escolhidos, iniciados, podem chamar pelo nome. Aquela que me envolve no mistério da literatura... Será possível que Joana? Essa mulher indecente, de pensamento obsceno, uma voz de Clarice.

Clarice já foi minha. Me gabei de Clarice, como se tudo aquilo que escreveu fosse um pouco meu. Como se o seu mistério pudesse me tornar mais interessante, mais presente, mais importante. Eu existi através de Clarice. Mas Joana me é desconhecida. Um pedaço de Clarice, indomável. Deixo Lispector aos demais, morro um pouco na minha insignificância.          

17 octobre 2017

Andarilho

Durante muito tempo tomei este carma por uma maldição. Algo que imprimiria, invariavelmente, um tanto de oposição na minha existência. É próprio da alienação uma espécie de inadaptação. À tudo o que nos rodeia. Às paredes, aos costumes, até mesmo à meteorologia. Estar em algum lugar sem colar-se ao pano de fundo. Nunca deixar-se estar. Nunca sentar na varanda, olhando a paisagem, tomando um refresco. Nunca sentir-se no lugar certo, no bom momento. E porque tinha a qualidade de carma, este apartar-se seria recorrente. Eu poderia mudar do oito ao oitenta, nenhum dos pontos que percorreria me traria mais conforto do que o anterior. Mas para minha surpresa, descobri há pouco tempo que tal oposição, decorrente de um desapego permanente, não estava fadada a ser necessariamente negativa. O incorforto tem as suas vantagens. Faz com que mudemos constantemente de posição. Tive a impressão, num dado momento, que o fato de não me ajeitar em lugar algum passou a desenhar o meu contorno. E quando, à noite, antes do sono, deixo o pensamento livre para fazer o caminho que bem entende, às vezes me vem à cabeça partes da minha trajetória descomposta. A única coisa que une estes pequenos pontos espalhados pelo espaço é o meu pensamento, e os sentimentos que guardo deles, dando-lhes um papel numa história. Se eu fosse um fugitivo, e que traçassem as minhas dispersões num mapa, com pequenos alfinetes de cabeças coloridas, procurariam indícios da minha passagem. Mas quais são os vestígios que deixei em cada lugar em que estive, nas pessoas com quem me relacionei?
Uma mulher, empregada no supermercado : “sim, lembro-me bem de sua feição. Foi afável. Comprou uma lata de ervilhas. Usava um pulôver creme, feito à mão”. Uma amante : “só guardei mágoas, e um ou dois presentes... bugigangas, coisas sem importância. Mas sabe como é, quando olho para estes objetos é como se estivesse presente”. O segurança da estação de trem : “Talvez... não estou certo. Por aqui passa tanta gente. Acontece que de ficar a observar o vai e vem, eu acabo desvendando uns mistérios. Aquele que anda alí, por exemplo... sempre achei que esperava pela namorada. Fica uns vinte minuto nessa mesma plataforma, todos os dias úteis. Talvez também venha nos fins de semana, não posso dizer, não sou eu que cubro os sábados e domingos, graças à Deus. Depois vai embora. Parece até que perdeu alguém, e que só pode reencontrá-lo aqui. Finalmente... não, esta foto não me diz nada. Deve ter sido um destes que se confundem na massa”. O cachorro, vira-lata, morador do ponto de ônibus abandonado, porque ficava numa rua de paralelepidos : “cheirava queijo coalho com geléia de mocotó, mas nunca comia coentro nem leite de coco. Também tinha cheiro de velho. Não como uma pessoa de idade... mais como uma roupa velha, ou um livro de sebo. Sempre me fazia umas cócegas atrás da orelha”. Uma professora : “tinha facilidades com línguas estrangeiras, e preferência acentuada pelas abstrações”. A própria mãe : “ menino quieto. Nasceu tão silencioso que quase não percebi que tinha nascido. Depois caiu no mundo. Desgosto”.
Pequenos pontos imperceptíveis, insignificantes, espalhados pelo espaço. Indícios de uma história. Aí estou eu.         


21 août 2017

Pedaços da noite

Levantara com o gosto do sonho na boca. Cumpriu todos os rituais matinais, tentando se concentrar na própria existência. Mas pedaços de irrealidades e sensações vividas durante a noite cruzavam os afazeres, insidiosos. Pequenos curto-circuitos, faíscas oníricas. Negava a veracidade de tudo o que tinha “vivido” durante a noite, e no entanto tinha satisfação em sentir as imagens que lhe acompanhavam nessa manhã.

Entre outros acontecimentos, tinha este : o calor que o espaço imprimia no próprio corpo, as partículas flutuando no ar feito vaga-lumes, a claridade amarelada do ambiente, tudo lhe levava a pensar que aquele seria o lugar ideal para plantar o seu pé de abacate. Chegou até mesmo a dizer em voz alta “esse lugar me parece perfeito”, e espantou-se com a própria frase. A pequena semente, quase redonda, tinha dado lugar, ao longo dos anos, a um enorme galho cheio de folhas verdes que só fazia crescer e já alcançava o teto. Mas almejava mais. Ela é que não podia decidir-se em plantá-lo em outro lugar. No vaso, ela levava o abacateiro para onde fosse.

Tinha também uma lembrança extremamente agradável, saudosa, cheia de sentimentos que lhe preenchiam dos pés à cabeça. Uma promessa incumprida, uma inquietação agradável, um amor. 

01 juillet 2017

O equilibrista

Ele se preparava para repetir a mesma ação que tinha feito o seu renome, e que já havia realizado umas tantas vezes. Tudo isso requeria muito treino. Todos os dias tentava equilibrar as palavras no fio. Acordava, saía para correr, tomava um bom café e logo retomava a atividade incompleta do dia anterior. Continuava de onde tinha parado, nunca voltava ao começo, até terminar de percorrer a corda toda. Não havia formação para esse tipo de atividade. A única coisa a fazer era observar como faziam os outros, praticar. E claro, inquirir sobre a própria ação e os objetos à sua volta. Mas isso valia para qualquer outra atividade. Ninguém tinha lhe transmitido um savoir-faire, nenhum membro da sua família tinha sido equilibrista como ele. Muitas vezes sentia-se só. Mas isso também fazia parte de toda existência. Tinha ouvido a história de um tataravô, pessoa excêntria, ex-treinador de cães de corrida, ex-condutor de submarinos, se convertera em caçador de baleias. Acabou a vida numa pequena cidade de algum país da América Latina, usando tweed com estampa escocesa, como mandava a tradição, sob o sol de 32 graus.

Os dias, definitivamente, não eram iguais. Apesar da rigidez que impunha à si mesmo, o equilíbrio não lhe dava o ar da graça sempre que o desejava. Porém, enquanto escritor, sempre desejava o equilíbrio. Não almejava a constância da forma, nem a clareza do conteúdo. Cada vez que se sentava à escrivaninha (ou na mesa da cozinha, ou no banco do metrô, ou onde quer que estivesse, com um caderno e uma caneta na mão), esperava que o componente misterioso e mágico da criação viesse entremeter-se naquilo que tentava colocar em cima do fio.

Um pedaço de música lhe veio à cabeça. Sobre uma atriz equilibrista, cujo público, admirando o espetáculo e acostumando-se à prestação, deixava-a por um fio pela força do próprio tédio. O escritor emocionou-se com o destino da atriz. Sentia-se encurralado como ela. Tamanho esforço para equilibrar as palavras, mas o público sempre exigente, pedindo mais. Das outras vezes essa exigência tinha sido para ele como lenha na fogueira. Trabalhou mais, treinou incessantemente, repetiu os mesmos gestos um número incontável de vezes.

Sentou na cadeira como se tivesse percorrido um deserto à pé. Se esparramou pelo acento, pequeno quadrado de madeira, que lhe servia de sustentação para o peso do próprio cansaço, da angústia, da solidão. Deixou-se estar. Nada lhe veio à cabeça nem às mãos. Nenhuma idéia ou sensação. Um homem, sozinho, diante da possibilidade da queda. Despiu-se do supérfluo. Posicionou-se. Tentou insistir numa idéia. Pensou que o nervosismo – uma sensação que parecia apertar o próprio estômago com as mãos – era salutário em situações decisivas. No fundo sabia que aquele seria o último passo. Respirou fundo, começou a equilibrar uma palavra depois da outra, consciente de começar um caminho sem volta. De imediato as coisas pareceram funcionar, como das outras vezes. Enganou-se com a ilusão do controle dos próprios movimentos. Mas o medo não se dissipou depois dos primeiros passos, a imaginação não apareceu para sustentar o que vinha em seguida. Desta vez a harmonia não lhe concederia a força de flutuar sob o fio. Extensão tênue do caminho necessário da alma, feito embuscada. Caiu. O que lhe faltou, não se soube. Vontade de ultrapassar à si mesmo, coragem ou sorte.    


Bilhete encontrado em cima da escrivaninha, escrito num pedaço de papel de pão:


“O prazer de escrever é para mim tensão. Funambulismo. Um texto que resiste é um prazer cheio de obstáculos e esforço. No que bem pode se transformar? Segue por esse caminho, ou por um outro? Quantas vezes deverá ser refeito, relido, rasgado? Se tornará um objeto à parte? Às vezes trata-se apenas de uma questão de harmonia dos movimentos. Tento evitar gestos bruscos. Uma questão de dosagem da força e da douçura. Tudo isso para alcançar algo apenas aparentado à sutileza. Mas outras vezes não é o texto que resiste. A corda, pronta, espera pela ação. Mas nada surge que se possa colocar-lhe em cima. Simplesmente não se tem nada para contar. Amontoar umas palavras, como alguém que sobe na corda, e não encontrar razão para dar um passo sequer para frente. Ficar alí, no mesmo lugar, equivale à queda.”     

07 juin 2017

E porque alguma coisa tinha feito com que parasse no tempo.
Que ficasse estacionada numa época indefinida, situação entre o fim da infância e o começo da idade madura.
Perguntava-se se aquilo do que tinha mais medo continuava sendo a morte dos pais, como quando somos pequenos.
Ainda que outra geração tivesse lhe sucedido.

E porque alguma coisa tinha feito com que parasse no tempo
observava os acontecimentos se sucederem uns aos outros sem julgamento.
Imaginava o retorno de uma situação algum dia atual, e por consequência inexistente.
Como se contasse uma história à si mesma.

Que ficasse estacionada numa época indefinida.
Afinal, o que bem poderia surgir de uma sequência de momentos, além de outros momentos?

Porque alguma coisa tinha feito com que parasse no tempo
mas não se lembrava de ter querido as coisas assim.
Teria se escondido
ao ver a própria sombra
e intuir o inverno?

A ficar estacionada numa época indefinida, mais preferia a reiteração de um dia.
Trataria de se divertir como Phil Connors, e se apaixonar.

Porque alguma coisa
(um desejo, um drama, um anseio)
tinha feito com

ela, que insistia
numa situação entre o fim da infância e o começo da idade madura.
Que parasse no tempo.
Não sabia fazer diferente.

Ficasse estacionada numa época indefinida
porque todo o resto era apenas uma imitação do que imaginava da idade madura,
ou nada mais lhe surpreendia.

E porque alguma coisa tinha feito com que parasse no tempo  
que ficasse estacionada numa época indefinida
situação entre o fim da infância
e o começo da idade madura
repetia as mesmas palavras a si mesma
mesma
mesma
mesma
com medo de perder as frases e a existência. 

17 mai 2017

contos e confissões

Me interesso pelas histórias que contam por aí. As autênticas, histórias cheias de ficção e personagens imaginários, cenas, ápices ou clímax, uma multiplicidade de enredos, o rítimo da invenção e a boa escrita. Ou, por vezes, uma escrita mediana, e uma boa história. Mas também me interesso pelas outras histórias. Aquelas, reais, sobre os acontecimentos que se estendem na realidade. Supostamente mais objetivas. Histórias “sólidas”, em comparação com as histórias que contamos uns aos outros, que também se sucedem no tempo. No fundo, gosto de ouvir histórias, contadas ou confessas.
Em algumas situações, como no ônibus, hoje de manhã, essa distinção parece tênue. O homem, sentado num banco alto, ao meu lado, falava ao telefone :
- As coisas ficaram muito melhores assim. Não, não preciso de muita coisa. Estou te dizendo, me sinto infinitamente melhor. Sem preocupações, sem dor de cabeça, aqui estou, livre. É difícil aceitar no começo, mas depois, estou te falando, a gente se sente muito mais leve...
Ouvir essa história durante os poucos instantes do trajeto de ônibus me tocou. Sem saber, me permitia entrar em sua intimidade, e contava-me sentimentos profundos com uma voz grave, de quem sabe do que está falando. De alguém que acabou de completar uma travessia. Falava como se tivesse galgado um deserto. Saía dele cheio de sabedoria.
Mas logo em seguida – eu, escutado as suas palavras como se lesse um livro - adicionou :
- Não preciso mais me preocupar com nada. Economizo uns três mil. Você imagina, eu ando de ônibus e de metrô, gasto só com o preço do transporte por mês. Não preciso de um carro grande. Vendi. Estou livre. Estou acabando de pagar os impostos... você não pode imaginar como estou me sentindo bem. A tranquilidade se paga, meu caro.
O ônibus deu um solavanco, e eu caí na real. De boca no chão. Aquela narração não tinha nada de transcendente. Nada do que eu sempre achei que deveria ter uma história. Não passava de um amontoado de futilidades. Palavras que se estatelavam no mundo, indevidas. Poderiam nunca ter existido.    
Eis que, depois de uma curta pausa, o homem segue dizendo :
- Posso te garantir, a gente apaga muito mais rápido do que acende. Eu sei o que é, estou te dizendo que quando acaba, nos sentimos muito melhor. Você lembra? Quando a situação ficou ruim, eu fiz um monte de besteiras. Contraí dívidas, gastei tudo. Não precisava de nada daquilo. Agora, você imagina, estou realmente pagando a última parcela do imposto. Depois acabou. Eu sei que vocês estão numa situação delicada. Eu te digo, guarde um pouco, faça um esforço. Porque quando a coisa aperta, dá errado, não sobra nada. E nenhum dos seus antigos conhecidos vai se dispor a estender a mão...
Tudo aquilo ia muito além da banalidade de uma compra de venda. O homem contava a história da humanidade. A ascensão e a queda. O engano. A solidão. Uma bela história travestida de aparente frivolidade. Os exatos elementos que me satisfazem numa experiência literária.   

20 avril 2017

Chuvento

Sentia a madeira, sólida e antiga, sob a palma de uma das mãos. Descia devagar, cada perna fazendo o movimento necessário e decomposto, como se mostrasse à uma criança como se desce uma escada. Todo esse cuidado tinha uma só intenção : retardar ao máximo o fim da sensação que lhe vinha da mão esquerda. Nesses momentos a cabeça se esvaziava dando lugar à um prazer sem medida.

Repentinamente, e de maneira abrupta, sentiu o vento formar o vácuo, e no instante seguinte puxá-la para o lado. Sem que se desse conta, alguém tinha se aproximado e passado por ela à passos largos. Surpresa, olhou para a frente e avistou o corpo que já partia, apressado, fazendo ranger a porta da entrada. Tão contundente quanto a passagem do estranho, a sensação de exterior sobreveio de uma vez. Tão forte. Ela vacilou, agarrou no corrimão, fechou os olhos e parou no meio da escada. Os três andares se elevavam do chão feito caracol. Ainda faltava um andar e meio para que chegasse até o térreo, mas o efeito foi tamanho que não conseguiu dar nem mais um passo. Ficou alí parada, num lugar onde ninguém parava. Exceto para dar passagem à uma pessoa, que tomava o caminho inverso, ou quando o fôlego faltava, aquele espaço só tinha conhecido a efemeridade. Respirou profundamente, uma, duas vezes. Tentava a todo custo guardar a sensação que lhe assaltava. De um momento ao outro, as escadas foram tomadas por um cheiro de chuva tão intenso, que a moça chegou a pensar que o teto tinha misteriosamente se despregado do resto do prédio. Demorou uns instantes para constatar que tudo permanecia no mesmo lugar. E no entanto, aquilo que conhecia lhe pareceu, de súbito, distante. Apenas o homem já se tinha ído, a porta se fechara num estrondo devido à corrente de ar. O cheiro de chuva já desaparecia. Pensou na veemência de uma tempestade, no estardalhaço dos trovões, no alvoroço da ventania. Depois pensou no reconforto da terra molhada. O homem que passou por ela é que cheirava chuva. Feito raio.        

     

29 mars 2017

O peso das coisas II : sentimento pendular

Já tinha visto aquele objeto curioso em algum lugar, ainda que não fosse o costume. Por um motivo que lhe era desconhecido, a diversão das crianças na sua cidade não incluía aquelas cadeiras singulares. Como nunca tinha experimentado sentar-se numas delas antes, nunca dera pela falta do brinquedo. Assim como as outras crianças, gostava de brincar de grudar as pequenas pernas nuas no escorregador quente de sol, de subir e descer escadas, escalar a árvore imaginária, conduzir o barco por águas perigosas... Mas das cadeiras voadoras, nem carência, nem arrependimento. 
Foi visitando a cidade da avó que um dia a curiosidade veio beslicar-lhe o tornozelo. Não disse nada, misteriosa que era, para não levantar suspeitas. Postou-se do outro lado do canteiro de areia, com dois baldes, como se pretendesse fabricar bolos para uma festa. Daquele ângulo podia contemplar o brinquedo desconhecido. As crianças iam e vinham com uma facilidade desconcertante. Algumas subiam com cuidado, outras pulavam na cadeira sem pés, e num mesmo movimento logo se punham a levantar vôo. Uma coisa era certa : cada criança que subia naquele negócio parecia experimentar outra realidade. Um prazer incomensurável se estampava em cada rosto. Uma sensação de super-herói; o transformar-se num animal alado; a impressão de ser outro. O uso do objeto parecia extremamente simples. A menina sentiu um formigamento nos pés; teria que viver aquela experiência, de um jeito ou de outro. Afinal, não se tratava de um brinquedo?
Através de observação minuciosa, concluiu que deveria imperativamente segurar com as duas mãos as correntes laterais. Nunca soltá-las; jamais. Sentia-se capaz de fazê-lo, ainda que não soubesse como se posicionaria para começar a voar. Enquanto pensava no gesto corriqueiro (o ato de sentar-se numa cadeira), ouviu a voz da avó chamando o seu nome. Iam embora. Tirou os olhos das cadeiras voadoras, e foi como se retornasse à Terra. Viu-se envolta por baldes, colada na areia, e sentiu inveja daquelas crianças. Quando iam ao parque, levantavam do chão. Ela mesma passava grande parte do tempo nos parques, e a única coisa que podia fazer para tirar os pés do chão era subir num trepa-trepa, ou pular corda. Nada comparado com aquilo. Nada de sentir o vento nos cabelos, o frio na barriga, as pernas livres... Nada de decolagem. Pensou que o escorregador, certamente o seu brinquedo preferido, causava-lhe um pouco dessas coisas. Mas a sensação não durava o suficiente para sentir-se estrangeira, como se chegasse ou partisse de um lugar distante. Nos três segundos de uma descida não chegava nem a perceber que estava realmente escorregando.
À noite, já quase fechando os olhos, uma imagem não lhe saía da cabeça : o movimento de panos. As saia das meninas esvoaçando, como se dançassem uma música que ela, na sua curta vida de criança, nunca tinha escutado. Lágrimas sentidas lhe subiram aos olhos. Prometeu a si mesma que no dia seguinte sentaria numa daquelas cadeiras.
A avó resolveu comprar legumes na venda. Na barriga da menina, caracóis e borboletas movimentavam-se incessantemente desde a noite anterior, causando alvoroço. Já tinha o plano todo na cabeça : uma vez que passasse o portão do parque, correria sem olhar para trás, em direção às cadeiras. Esperava que uma delas estivesse vaga. Isso porque tinha medo dos próprios sentimentos:  e se na hora lhe faltasse coragem? E se vacilasse diante da habilidade das outras crianças? E se simplesmente não conseguisse fazê-la voar? A pouca experiência e a falta de autonomia ainda não lhe tinham permitido saber o que valia. Tratava-se de uma curta existência. Mas até alí, mais de uma vez, acreditava ter feito prova de coragem. Diziam dela que era “destemida”, e ainda que não soubesse exatamente o que a palavra queria dizer, à menina lhe parecia que contava algo sobre como lidava com as dificuldades. Quando caía, se esforçava para não chorar. Quando dormia, fechava a porta. Quando uma vez perdeu a presilha que tinha acabado de ganhar, não disse nada a ninguém. Também não contou a ninguém que o seu bicho preferido não era o gato, mas a taturana. Desconhecia qual seria a sua própria reação diante do desafio. Mas a vontade de subir numa daquelas coisas era tão grande, que se não tentasse pelo menos uma vez, sentia que nunca mais teria sossêgo na vida. O seu coração, ainda pequeno, batia mais forte do que tambor.
- Que maravilha estão estes pêssegos!
- A senhora vê, ainda não estamos no verão, e já vão dando feito banana... Este ano promete!
Tentou se concentrar nas frutas e nos legumes do carrinho. Não queria sentir raiva da avó. Mas sentia. Muita. Porque tinha que comprar mais frutas e legumes se a sua cozinha estava repleta de comida? Porque sempre tinha que conversar com todos os vizinhos, vendedoras, com os cachorros e gatos, e papagaios, e os porteiros, taxistas, vidraceiros, e com todo mundo que caísse na besteira de lhe dizer um simples “bom dia”? Porque justo hoje tudo demorava em acontecer? A menina sentiu que se não saísse rapidamente da mercearia, se transformaria numa nuvem carregada, e sairia chovendo por aí.  
No momento preciso em que os seus braços viravam ao translúcido, ouviu a avó se despedir “esse mundo, cada vez mais...”. Num átimo voltou a se sentir inteira, e decidida. A espera tinha aumentado as ganas da menina. Como em seu plano, e sem nem perceber o caminho entre a venda e o parque, empurrou o portão de ferro com os pés, e disparou. Não olhou para trás. Não disse nada à avó. Corria, e tinha a impressão que já nem tocava mais o chão. A única coisa que fixava era a cadeira mágica. Uma cadeira vazia que lhe dizia “te esperei toda a vida!”. Se aproximou o máximo que pode sem tocá-la, e postou-se diante dela com respeito. Como para dizer às outras crianças “ela me esperou a vida toda”. Custou à menina dar-lhe as costas. Contemplou o parque sem realmente enxergar as pessoas, os brinquedos e os bancos à sua volta. Como se deixasse para trás algo importante, uma cidade, um país, um planeta. Embarcava para uma viagem, cuja as razões lhe eram desconhecidas, mas que sabia necessária. O momento em que agarrou as correntes com as mãos foi o mais delicado. Lembrava da regra, a mais importante : nunca soltar as correntes. Mas então uma dificuldade inusitada surgiu à menina : como tinha as mãos ocupadas, não podia fazer uso delas para subir no banco. E como o banco estava suspenso pelas correntes, ele ia de um lado para o outro, acompanhando o esforço que ela fazia para se sentar. Três tentativas frustradas. A dúvida tormou conta da menina: as bochechas quentes de vergonha, as mãos vacilantes et suadas. Estava a ponto de largar as correntes, quando surgiu ao seu lado uma outra menina.
Até aquele momento, concentrada na sua aventura, nem sequer tinha olhado para as outras cadeiras. A menina ao seu lado devia ter a sua idade. Um vestido vermelho, combinando com duas fivelas e duas chiquinhas, que seguravam duas longas tranças. Encostou no brinquedo como quem tem o hábito. No entanto, conteve-se. Ao invés de entregar-se ao prazer da decolagem, postou-se de costas para a cadeira, segurando as correntes. Alinhadas, as duas pareciam se preparar para o maior salto de suas vidas. Brincadeira era coisa séria.
Uma olhou para a outra, e sussurrou “tudo bem, tudo vai ficar bem”. A menina fixou os olhos na vizinha, porque foi como se lhe chamassem... “vem, faça como eu!”. As duas, concentradas, aguardavam o próximo passo. Momento suspenso no tempo feito pena de passarinho. De súbito, a vizinha pulou na cadeira, segurando as correntes. A menina, sem pensar, fez o mesmo. E de repente, seus pés já não estavam mais no chão, e o impulso inicial deu lugar à oscilação, a um vaivém, mais rápido, mais rápido, mais rápido, e o seu vestido voando no ar, e o seu corpo dançando com a cadeira, e os seus pequenos braços, extensão das correntes, o sorriso, a risada, o prazer de voar! A menina olha o parque. Do alto, árvores aparecerem e desaparecerem, o céu e o chão, o frio na barriga, parece até que vê a realidade de ponta cabeça. Já não sabe mais distinguir a parte de cima da parte de baixo. As coisas do mundo não tem mais lugar fixo, não tem mais peso. Flutuam no espaço da existência. Ela olha para o lado, e numa expressão de felicidade incontida, agradesse a outra menina. Desejou que aquele momento não acabasse nunca mais. Não sabia como parar, e não se preocupava com isso. Estava suspendida, pendurada, sustentava-se no ar...


- Menina! Já é mais de meio-dia! Desce do balanço, que a vida é mais do que um vai e vem!     

22 mars 2017

Ambientalizar-se

Esta noite pulei de um precipício - qual a diferença entre um precipício e uma montanha? O precipício é o fim do caminho, e a montanha, tudo o que está antes de chegar ao fim do caminho? Enquanto caía, pensava: “é muito alto pra eu pular. Alí bem longe está o mar. Como vou fazer para aterrissar? De maneira profunda e dolorida? Vou me afogar?”. Imaginava o impacto do meu corpo na água. Devido à distância de onde saltara (dalgum ponto já imperceptível, ainda que a queda se desce de maneira suave) e da velocidade na qual caía, via o meu corpo esmagado pela água feito um pedaço de concreto que se desprende de suas cordas de aço numa construção. Mas não foi o que aconteceu. A longa distância percorrida e a suavidade da queda fizeram da força cinética (e não do meu próprio peso) um afago. Caí devagar, e ao entrar na água meio turva, não senti nem frio nem falta de ar. Apenas pensei : “aqui estou imersa num lugar que me é desconhecido, cuja textura agradável não é suficiente para apagar a suspeita”. Eis que avisto um corpo; um outro ser vivo se mexendo na turpitude. Não se aproxima, de maneira frontal. Se move de um lado para o outro. Eu sei o que é. Percebo mais um ao meu lado, mas ele logo desaparece para dar lugar ao primeiro tubarão, cuja cabeça é bem maior do que o corpo. Ação inconteste, ele vem em minha direção, se movimentando para a esquerda, para a direita, devagar. Antes que abra a boca, o meu medo é tamanho, que mesmo sabendo que se trata de um sonho, eu abro os olhos, forçados pelo pavor. Mas e se não me engolisse? Ou se, abocanhando eu toda, me levasse para dentro da sua barriga, onde não existiria mais espaço para a dúvida?          

12 mars 2017

Além do cimo da árvore II

Algo me impede e me compele, ao mesmo tempo.  Até que me torne incompressível. Gostaria de me inventar naquela floresta de pinheiros, nevoeiro estranho à alma, visão panorâmica, como se eu fosse uma águia, ainda que tenha medo de altura. Não sei bem se desejo mergulhar, nem sei para onde, exatamente, um pássaro deste porte se dirige. Provavelmente mergulha em direção à uma presa. Quanto mais descorro, mais me afasto daquele lugar inexistente e misterioso. Me parece um pedaço de passado. Ou um espaço suspenso. Mais pertence à imensidão, ainda que me faça me sentir numa estância. Não adianta insistir. Quando foge, deixa estar. Depois volta. 

01 février 2017

Gênese

Através do feixe de luz, pequenas partículas de pó dançam, como se se sustentassem no ar. Pensei : “ eu sou uma dessas partículas, nunca me encontro num mesmo ponto. Nunca estou onde deveria estar.” Uma matéria imprevisível. Incompressível.

Senti pelos meus pais. Sempre me procurando alí onde eu não estava. Por vezes, tomados pelo sentimento de amparo, desabafavam “aqui está”. E no momento seguinte, escapulia. Sem que percebessem. E mais uma vez deviam dizer a si mesmos : ”onde essa menina guarda o seu coração?”.

Pequenos indícios de matéria, transitando de um lado para o outro. Impossível segurá-los com as mãos.

Outro dia ouvi uma mulher contar a sua experiência da morte iminente. Um momento de plenitude, um conforto inesperado. Quais podem ser as possíveis razões da existência? A matéria, esta que conhecemos, exposta às provas, às peculiaridades de um estado, de outro. Ela diminui, dilata, evapora. Molda-se pelo efeito do vento. Cai, ou encontra-se parada num mesmo lugar anos a fio.

Às vezes em que estamos, meu pai ou minha mãe e eu, num mesmo lugar, lembro-me daquilo do que sou feita. Momentos que parecem ... como se cortássemos o tempo em pedaços. Não são retalhos de uma grande colcha. Não dão continuidade a coisa alguma. São quadros que valem pelo que são, no momento em que acontecem.

Uma hora a poeira baixa. Sob o feixe de luz quase extinto, uma ou outra partícula resiste à atração. Essa força desconhecida que impele em direção à grande matéria, como se fôssemos magnéticos.

Afinal, algo terá valido mais a pena do que estes pedaços de tempo, decerto esparços, mas completamente preenchidos pela matéria, plenamente envoltos pelo coração?    

15 décembre 2016

Além do cimo da árvore

Trata-se de um lugar especial. Parece que está sempre aqui, do meu lado, sob meus ombros, logo acima da cabeça, pairando no espaço invisível, imaterial. Mas o seu acesso é extremamente restrito. Não posso decidir sozinha “hoje vou dar uma passada”. Não é desses lugares em que damos uma passada.
Para que uma passagem se abra (e que eu, de repente, me encontre alí sem entrever as premissas de uma mudança), certas condições devem estar reunidas. Então, é como se uma fissura rachasse a realidade de uma ponta à outra. Mas eu não saberia nomear as exatas condições. Tenho apenas a impressão delas. O espírito, numa dada conjuntura de sentimentos. A noite que cai, escura, ocupando todo o entorno feito um borrão. A claridade seca de um dia de outono.
Nessas horas é como se tudo se resumisse a um só ponto. Eu continuo dona  dos meus próprios movimentos, e todos os outros elementos estão presentes, mas tudo se comporta como uma existência que muda de entonação. As sensações mais presentes, mais marcadas, parecem me carregar para além daquilo que conheço. A vivência de todos os dias torna-se apenas uma história. Novamente me vem a sensação : algo paira sob a minha cabeça. A fissura se abre, eu me meto dentro dela, e no momento seguinte sou eu quem paira sob a realidade.
Tento escutar um indício vindo de algum canto. Como se não tivesse o hábito do desconhecido, e esperasse por uma explicação. Mas não há nada além do silêncio. As palavras continuam ondulando, invisíveis, mas fazem parte de uma matéria compacta. Como se eu, as palavras e todo o resto fôssemos um bloco. Depois de um certo tempo, quando o espírito se acostuma com a nova vibração, a individualidade deixa estar, e expande-se em mil pedaços. O barulho é surdo, estufado.
Quanto mais procuro descrever este lugar, mais me afasto dele. Como se desfiasse, à medida que costuro as palavras. Não é objeto, para que se observe tentando a todo custo lhe colar um pensamento. Não lhe cabe descrição. Não se pode abarcá-lo. Não se pode segurá-lo com as mãos.
De repente me lembro das páginas deste livro infantil. Me parecia estranho, porque na maioria delas faltavam cores. Tinha essa menina, que passava de um lugar à outro, segurando no rabo dos pássaros, mas a paisagem era sempre a mesma : uma espécie de aridez, própria à página em branco. Imaginava um lugar distante, porque certamente a branquidão da paisagem remetia à neve. Um pólo, um país onde chaminés cuspiam fumaça incessantemente. Campos nevados. Mas de uma maneira estranha a menina não parecia sentir frio. Usava um vestido curto de criança, esvoaçante à maneira dos pássaros. Foi assim que uma impressão colou-se na memória dessas páginas : a impressão de que o lugar em que se encontrava esta menina era um lugar inexistente, ou no mínimo diferente da realidade. Uma fenda no tempo.
Hoje o dia esqueceu de amanhecer. O céu está baixo, as luzes dos lampadários estranhamente acessas. É possível respirar a iminência de um acontecimento. Mas tudo demora em se fazer presente. E como se o dia exercesse uma pressão sob meu corpo, e que a matéria não soubesse mais para onde ir, o meu corpo atravessa lentamente a fissura, e me encontro mais uma vez neste outro lugar.

Certamente, a vibração inusitada das partículas da matéria resultam, de uma maneira ou de outra, na flutuação. Como se espalhando-se, os menores pedaços de cada coisa (pessoa, palavra, nota musical), vacilassem e ocupassem toda a bolha em que se encontram. Pois é essa a sensação que me provoca, esse lugar aquém do nível do mar, além do cimo da árvore : um meio aquoso, fluído, esvoaçante, animado. Logo mais, quando me puser a tentar cerceá-lo com a razão, me escapará mais uma vez, deixando-me para trás, ou no mesmo lugar em que me encontrava no instante anterior. Invariavelmente sinto a tonalidade da realidade mudar, quando por um motivo que me é desconhecido e misterioso, atravesso a fresta que se abre. Mas nunca percebo o momento em que me descolo deste lugar especial. A mim, só resta deixar-me estar. Fecho os olhos, me esqueço, agarro nas últimas sensações, num esforço de manter toda partícula nesse mesmo timbre peculiar. Aí está a realidade a me chamar a mim mesma.  

26 octobre 2016

Homenagem à B.

B. tem uma franja cortada rente na testa. Os cabelos cor de vinho Bordeaux, e os óculos de aro grosso, preto, moderno. O prazer de escutar a sua voz, de pessoa ex-fumante, pronta para a recaída. Ela usa colares (dois ou três) de pérolas coloridas sob uma blusa estampada. Não sei se usa brincos. Penso que brincos não combinam com B., e ao mesmo tempo, não há como pensar em B. sem brincos. É que o seu cabelo cobre as orelhas, como se não existissem. Deve ter os seus 60 anos. Dinâmica, e old school. B. se destaca dos outros membros da mesa pela sua feiúra. Não há como negar, por mais que se insista na benevolência e na comunicação positiva. É feia. B. me faz pensar que existem dois tipos de feiúra. Aquela que nos vem primeiro à mente, repulsiva, desagradável. A feiúra de B. é outra : uma manifestação da natureza. Uma maneira de estar presente na realidade. Uma afirmação. Sempre este a priori : é feia, consequentemente, será menos que os outros. Mas quando B. pega o microfone e comunica uma mensagem, ao mesmo tempo previsível e cheia de charme... tudo embalado pela voz rouca do tabaco... B. se impõe, e transforma os seus vizinhos em pequenos seres uniformes. Porque nenhum deles é feio; mas tão pouco encarnam uma beleza de encher os olhos. Clássica, ou surpreendente. Encarnam a mediania, a mediocridade. Assim, B. (Brigitte), me leva para outros lugares. Eu a imagino conversando com os seus gatos (dois ou três, peludos). Eu imagino a cidade pequena de onde vem. A relação extremamente amigável e familiar que mantém com a maioria dos moradores (o padeiro, o açogueiro, a chocolateira, as crianças do vizinho...). Sua solicitude com o próximo, e principalmente com o seu namorado (cujo encontro se deu numa reunião organizada no salão de festas, sobre a fabricação de terrários caseiros). De toda a sua presença, é o seu nome que mais me fascina. De certo, o nome ao qual se juntam o aspecto, a postura, a vestimenta. Mas para mim, são apenas apetrechos. Decoram e constróem o todo em volta deste nome : Brigitte.  

Pequeno achado


É como se estivesse impregnado.
Em cada canto do meu bairro
no meu café, na esquina.
E eu, na espreita, esperando algum acontecimento.
Mas não há de haver nenhum.

Vontade de esticar o espaço,
o tempo-espaço.

Criar uma divisão entre o agora e o além.
E de repente, estas cenas de vai-e-vem.

Vontade de escarrar no tempo linear.

Se passar por esta rua (sem que eu provoque o acaso),
olhe para a sua direita,
veja-me sentada a esta mesa
lance-me um aceno, numa expressão de familiaridade.

08 septembre 2016

Alma penada


Essa noite sonhei que você estava bem alí, ao meu lado, gelado como um cadáver. Magro e branco. E ainda assim se agarrava em mim, segurava o meu braço. E o mais extraordinário : aquilo me agradava. Uma mulher tentava, de maneira sutil mas com empenho, puxar-te para longe. E como o seu esforço não surtia efeito, abraçou-nos os dois, e disse algo como “ah! A sua querida...”. Talvez o sonho seja um indício : logo mais esse sentimento (circular, de consistência densa e macia, inteiriço) desaparecerá. Poderemos enterrá-lo. Mas até lá, quase não explico a mim mesma o sentimento de plenitude que o seu braço, ainda que frio, fraco e branco em demasia, provocou em mim.
Toda vez que me surge, antes em carne e osso, hoje numa visão, você é assombração.
A mim me parece que a nossa vida é feita dessa procura incessante pelo mistério. Alcançar aquilo que não conhecemos (sem cheiro, sem corpo, sem voz), tocar, ainda que de maneira breve, aquilo que não nos foi revelado. Procuramos almas invisíveis. Uma existência pressentida, e no entanto ignorada... Talvez, depois da morte, outras vidas. Talvez uma razão. Uma evolução, uma luz, uma plenitude, uma imensidão qualquer. Mas talvez (e muito provavelmente) apenas uma distração.
Quando em vida, você era um mistério para mim. Por mais que quisesse me aproximar da Humanidade, entender outrem, não desvendava as suas razões. Um dia sim, um dia não. Um dia noite, um dia dia. Um dia meu, um dia d’outras. Um dia aqui, um dia lá. Seus movimentos me davam náuseas do alto mar. Eu, pequeno ponto na tempestade. O céu carregava-se de nimbos, que antes mesmo de desaguarem feito tromba, pareciam formar um panorama revolucionário.
Nós, aqui, ocupando todo o espaço, alinhavados em problemas e esperanças. Contamos o tempo, separamos os períodos, classificamos os acontecimentos... mas nada de escutar um sinal vindo de outro lugar. Apesar de todo zumbido, o silêncio abissal do que nos circunda.
Se eu fecho os olhos bem forte, se me concentro, se a evidência pedante da realidade me concede o tempo de um suspiro; se todas essas condições se reúnem ao vaga-lume presente na alma, consigo quase te tocar. Um, dois, três... volto a sentir os olhos fechados, as pálpebras pesadas e presentes. Aperto os olhos, quero estar neste “algum lugar”. Desiludo. Durante o dia uma coisa e outra ainda suscitam a sua imagem, mas o que prevalece (assim como numa dinâmica mais abrangente: o universo, a termodinâmica, o destino de todo pedaço vivo de matéria) é a frieza do que a morte embala.
Parece que de nada servem nossos enormes telescópios, robos teleguiados, missões espaciais. Por vezes um fato torna-se um começo de alguma coisa (luzes estranhas, uma frequência, a sombra de uma foto...). Mas a coisa sempre acaba por se transformar em história. O silêncio do espaço cai sob nossos ombros. Abáfa-nos.  Excessivo, o manto da solidão. Nascemos de uma coincidência tão insignificante, sem ganas de reproduzir-se. Exigimos uma explicação. Mas ela não vem, ou não existe. Sobre a vida (e o seu fim) nem sombra de uma mínima razão.
Existe o conhecido, e o outro lado. Na maior parte do tempo me contenho nesse espaço denominado realidade. Mas ocorre, algumas vezes, de eu ter a sensação de outro lugar. Um sem nome. Impossível. Enquanto resultado de uma coincidência insignificante, me abstenho. E no entanto, persiste em mim a fissura, como uma passagem secreta na qual eu mesma poderia me abismar. Quem sabe não é aí que você mora agora?       

04 août 2016

Rádio de pilha

Colo o meu ouvido no pequeno amplificador do rádio de pilha. As melodias, umas seguidas das outras, me transportam à outro lugar. Um espaço inexistente. Extremamente agradável, cheio de sentimentos e potencialidades. Tudo, e tanto, que sinto meu peito se encher daquilo que é invisível, e incomensurável. Parece até que está “a ponto de”, aproximando-se perigosamente do instante que antecede a fragmentação. Essas canções, reminicências, há muito grudadas nas paredes dos filamentos musculares, confundem-se nas notas lançadas pelo rádio, e libertam-se de um sono profundo, pairando nos corredores do meu próprio corpo. Acordam outras lembranças : da terra, do amor, das sinuosidades e reviravoltas. Através do gesto trivial (ligar o rádio de pilha), me transformo num bocal repleto de memória, prestes a transbordar esparramando-a no presente.  

24 juin 2016

O peso das coisas I

O calor surge, me pegando desavisada. O casaco que retiro do corpo torna-se chumbo. Um entulho nas mãos, que entrava a minha liberdade. O peso das coisas, assim como o resto da realidade, encerra a própria verdade nas circunstâncias. Fosse a paisagem diferente, camadas de neve cobrindo o asfalto, resfriando os corrimões de ferro, o vento mordendo tudo o que encontra pelo caminho, esse mesmo casaco que seguro como se tivesse nas mãos um bicho morto, seria para mim, como uma segunda pele. Desejaria ardentemente – desejo bem cabido, devido ao contraste entre a temperatura ambiente e qualquer derivado da palavra ardor - que fosse realmente uma carcaça, pra me enfiar dentro dela feito verme.

Como já se disse do peso da existência : sutil, aérea, mas insustentável. Ou insuportável, dependendo dos óculos.  

05 juin 2016

Esmoleira

Quando comecei a ver aqui e ali um pedinte segurando um filhote de cachorro ou de gato, a angústia tomou conta de mim. Então as pessoas se sentiam mais tocadas por um pequeno animal do que por aquele que, sentado ao lado do bicho, buscava um jeito de se alimentar, esquecer, se locomover ou comprar cigarros? Pensavam : “Pobre homem... o cachorro lhe faz compania. Mas se nem tem o suficiente para o próprio sustento, o que dará de comer ao filhote?!?”. Na tristeza da pobreza, além de aguentar estorvos decorrentes da situação, há de se fazer uso de sensibilidade para ganhar uns trocados. Cada indivíduo tenta encontrar um jeito de tocar outros indivíduos. E visto que mais o tempo passa, mais a riqueza torna-se exclusiva, não há condição particular para se encontrar em meio à dificuldades financeiras. A pobreza não é própria à ninguém, mas aí está algo que tende a se democratizar. Fazer apelo à alma de poeta, à astúcia, aos dotes vocais, aos conflitos internacionais, à veia cômica, à pena... todos os caminhos para arrecadar umas moedas buscam tocar a alteridade.

Foi assim, afundado em tais pensamentos, que decidi examinar maneiras de preencher o espaço vazio da esmoleira. Nas ruas, no transporte, nos bancos da praça, observar aqueles que pedem dinheiro é uma maneira de entender o ser humano. Interrogar a alma que dá “uma esmola”, “uma ajudinha”, “um trocado”... o que faz com que ponha a mão no bolso, recupere umas moedas, e às vezes mão na mão, às vezes jogadas despudoradamente num prato velho, se desfaça delas, transferindo-as ao outro? O outro; procede à uma intervenção sentimental sem nem se dar conta. Certamente outras preocupações pululam na cabeça.

Pequeno, depois de percorrer a feira com a minha mãe, sentava com ela nas cadeiras improváveis de uma barraca de pastel, e invariavelmente uma criança vinha nos abordar. Minha mãe explicava : “Olha, dinheiro eu não dou, mas se você estiver com fome, eu compro um pastel.”. Aquela situação me deixava extremamente sem graça. A vergonha de comer com um desconhecido se misturava com a vergonha de também ser criança, muitas vezes da mesma idade do pequeno pedinte. Na maioria das vezes a criança comia o pastel com vontade. Mas eu só conseguia pensar : “na vida precisamos de outras coisas além de pastel... como ele vai fazer se todo mundo pra quem pedir dinheiro lhe comprar um pastel?”. Minha mãe me explicou que muitas vezes as crianças vinham a mando de um adulto, que acabaria gastando tudo em bebida e cigarros. Melhor mesmo era garantir que o pequeno pedinte guardasse alguma coisa no estômago. Eu comia o pastel apressado, querendo logo voltar para o conforto do meu lar, e esquecer a situação, e o adulto que cuidava de tal criança, que na minha cabeça se aparentava ao homem do circo da história do Pinóquio, que transforma crianças em burros. Mas no fundo, que acabasse comprando cigarros ou pagando a conta de luz, o adulto por trás da criança tinha entendido um princípio deontológico transformado em lugar-comum : a pobreza na infância é tragédia, a pobreza de um adulto é destino.
    
Ultimamente a alteridade andou por outros caminhos. O lugar de uma criança é em casa ou na escola. E se antes cruzá-la na rua merecia atenção, cada vez mais a imagem torna-se intolerável. Hoje em dia um adulto que pede esmola precisa de ajuda, mas um adulto acompanhado de um pequeno pedinte não merece consideração. A irresponsabilidade do adulto toma o lugar da necessidade na sensibilidade do doador. Afinal, porque se impõe, de maneira violenta, expondo desgraça? Outro lugar-comum. Daí a proliferação de pequenos animais. No começo eram filhotes de cachorros e gatos. Em seguida vieram os coelhos. Qual será o próximo animal capaz de amaduar o coração do passante sem contrariá-lo?
  
Situações conflituosas de terras distantes também tornam-se visíveis nos corredores do metrô, ou nos sinais de trânsito. Famílias inteiras (a mãe, o pai, a avó, o tio, um adolescente, duas ou três crianças, um bebê de colo) amontoam-se num pequeno espaço com cartazes onde se vê marcado “família síria”. O passante se pergunta “serão mesmo sírios?”, e dependendo de como acordou naquela manhã, com quem cruzou no elevador, o tempo, os afazeres do dia, o fato de estar apaixonado ou de luto, por onde viajou, as origens dos bisavós, e de uma série de outras conjunturas, decidirá em favor do gesto esperado, (a mão que adentra a bolsa, ou o bolso do casaco buscando uma ajuda), ou apertará o passo. Nota-se que quando o passante, abordado pelo pedinte, decide somente passar, a cadência dos passos aumenta. Parece que deseja correr pra longe da pobreza. Mas quem vai condená-lo? O pedinte, se um dia trocasse de papel com o passante, certamente teria ganas de sair correndo o mais longe possível da pobreza.   

Hoje de manhã um homem entrou no vagão, e cantou uma música de Georges Brassens. A alma nua; sem instrumentos, sem acompanhamento, sem microfone nem nenhum outro artifício. Uma coragem admirável. Sem discurso, entrou no metrô, pediu desculpas e disse que cantaria uma música. De certo, era afinado. Tinha a voz doce. A relação entre a aparência e a doçura era disparate : tinha roupas (poucas para a época do ano) sujas. Vía-se que dormia num lugar e noutro, e que nunca tinha feito da música um ganha-pão. Pensei nos trocados dos quais me desfizera a pouco comprando um jornal, e me arrependi. Meus bolsos estavam vazios. Demorei a perceber a moça, porque segurava um livro, e porque me perdia, como ela, na melodia. Fingia que lia, mas o sorriso tímido que esboçava dizia algo mais. Aquele homem lhe tocava a alma; seus olhos fixavam as páginas, sem dechifrá-las. Olhos úmidos. A canção lhe lembrava um momento perdido no tempo e na correria da vida, e o fato de ouví-la naquela manhã, de forma inesperada, fazia do instante um poema. Quando saísse do vagão, questionaria suas escolhas, se recordaria de uma pessoa que amara, de um principio deixado de lado, da simplicidade, de uma maneira diferente e esquecida de viver a própria vida.     
      
Assim como a moça, eu também deixei o vagão pensando numa maneira diferente de viver a vida. Não se trata de ironia ou de parlatório. Impressões sem sentido. Sentimentos jogados ao vento. Observar as intervenções dos pedintes não denota voyerismo. Trata-se de uma homenagem. Cada vez mais difícil é saber como alcançar o outro. Pois é o que tentam fazer todos os dias os milhares de pedintes, quando procuram botar algo o estômago e na esmoleira.