17 mai 2017

contos e confissões

Me interesso pelas histórias que contam por aí. As autênticas, histórias cheias de ficção e personagens imaginários, cenas, ápices ou clímax, uma multiplicidade de enredos, o rítimo da invenção e a boa escrita. Ou, por vezes, uma escrita mediana, e uma boa história. Mas também me interesso pelas outras histórias. Aquelas, reais, sobre os acontecimentos que se estendem na realidade. Supostamente mais objetivas. Histórias “sólidas”, em comparação com as histórias que contamos uns aos outros, que também se sucedem no tempo. No fundo, gosto de ouvir histórias, contadas ou confessas.
Em algumas situações, como no ônibus, hoje de manhã, essa distinção parece tênue. O homem, sentado num banco alto, ao meu lado, falava ao telefone :
- As coisas ficaram muito melhores assim. Não, não preciso de muita coisa. Estou te dizendo, me sinto infinitamente melhor. Sem preocupações, sem dor de cabeça, aqui estou, livre. É difícil aceitar no começo, mas depois, estou te falando, a gente se sente muito mais leve...
Ouvir essa história durante os poucos instantes do trajeto de ônibus me tocou. Sem saber, me permitia entrar em sua intimidade, e contava-me sentimentos profundos com uma voz grave, de quem sabe do que está falando. De alguém que acabou de completar uma travessia. Falava como se tivesse galgado um deserto. Saía dele cheio de sabedoria.
Mas logo em seguida – eu, escutado as suas palavras como se lesse um livro - adicionou :
- Não preciso mais me preocupar com nada. Economizo uns três mil. Você imagina, eu ando de ônibus e de metrô, gasto só com o preço do transporte por mês. Não preciso de um carro grande. Vendi. Estou livre. Estou acabando de pagar os impostos... você não pode imaginar como estou me sentindo bem. A tranquilidade se paga, meu caro.
O ônibus deu um solavanco, e eu caí na real. De boca no chão. Aquela narração não tinha nada de transcendente. Nada do que eu sempre achei que deveria ter uma história. Não passava de um amontoado de futilidades. Palavras que se estatelavam no mundo, indevidas. Poderiam nunca ter existido.    
Eis que, depois de uma curta pausa, o homem segue dizendo :
- Posso te garantir, a gente apaga muito mais rápido do que acende. Eu sei o que é, estou te dizendo que quando acaba, nos sentimos muito melhor. Você lembra? Quando a situação ficou ruim, eu fiz um monte de besteiras. Contraí dívidas, gastei tudo. Não precisava de nada daquilo. Agora, você imagina, estou realmente pagando a última parcela do imposto. Depois acabou. Eu sei que vocês estão numa situação delicada. Eu te digo, guarde um pouco, faça um esforço. Porque quando a coisa aperta, dá errado, não sobra nada. E nenhum dos seus antigos conhecidos vai se dispor a estender a mão...
Tudo aquilo ia muito além da banalidade de uma compra de venda. O homem contava a história da humanidade. A ascensão e a queda. O engano. A solidão. Uma bela história travestida de aparente frivolidade. Os exatos elementos que me satisfazem numa experiência literária.   

20 avril 2017

Chuvento

Sentia a madeira, sólida e antiga, sob a palma de uma das mãos. Descia devagar, cada perna fazendo o movimento necessário e decomposto, como se mostrasse à uma criança como se desce uma escada. Todo esse cuidado tinha uma só intenção : retardar ao máximo o fim da sensação que lhe vinha da mão esquerda. Nesses momentos a cabeça se esvaziava dando lugar à um prazer sem medida.

Repentinamente, e de maneira abrupta, sentiu o vento formar o vácuo, e no instante seguinte puxá-la para o lado. Sem que se desse conta, alguém tinha se aproximado e passado por ela à passos largos. Surpresa, olhou para a frente e avistou o corpo que já partia, apressado, fazendo ranger a porta da entrada. Tão contundente quanto a passagem do estranho, a sensação de exterior sobreveio de uma vez. Tão forte. Ela vacilou, agarrou no corrimão, fechou os olhos e parou no meio da escada. Os três andares se elevavam do chão feito caracol. Ainda faltava um andar e meio para que chegasse até o térreo, mas o efeito foi tamanho que não conseguiu dar nem mais um passo. Ficou alí parada, num lugar onde ninguém parava. Exceto para dar passagem à uma pessoa, que tomava o caminho inverso, ou quando o fôlego faltava, aquele espaço só tinha conhecido a efemeridade. Respirou profundamente, uma, duas vezes. Tentava a todo custo guardar a sensação que lhe assaltava. De um momento ao outro, as escadas foram tomadas por um cheiro de chuva tão intenso, que a moça chegou a pensar que o teto tinha misteriosamente se despregado do resto do prédio. Demorou uns instantes para constatar que tudo permanecia no mesmo lugar. E no entanto, aquilo que conhecia lhe pareceu, de súbito, distante. Apenas o homem já se tinha ído, a porta se fechara num estrondo devido à corrente de ar. O cheiro de chuva já desaparecia. Pensou na veemência de uma tempestade, no estardalhaço dos trovões, no alvoroço da ventania. Depois pensou no reconforto da terra molhada. O homem que passou por ela é que cheirava chuva. Feito raio.        

     

29 mars 2017

O peso das coisas II : sentimento pendular

Já tinha visto aquele objeto curioso em algum lugar, ainda que não fosse o costume. Por um motivo que lhe era desconhecido, a diversão das crianças na sua cidade não incluía aquelas cadeiras singulares. Como nunca tinha experimentado sentar-se numas delas antes, nunca dera pela falta do brinquedo. Assim como as outras crianças, gostava de brincar de grudar as pequenas pernas nuas no escorregador quente de sol, de subir e descer escadas, escalar a árvore imaginária, conduzir o barco por águas perigosas... Mas das cadeiras voadoras, nem carência, nem arrependimento. 
Foi visitando a cidade da avó que um dia a curiosidade veio beslicar-lhe o tornozelo. Não disse nada, misteriosa que era, para não levantar suspeitas. Postou-se do outro lado do canteiro de areia, com dois baldes, como se pretendesse fabricar bolos para uma festa. Daquele ângulo podia contemplar o brinquedo desconhecido. As crianças iam e vinham com uma facilidade desconcertante. Algumas subiam com cuidado, outras pulavam na cadeira sem pés, e num mesmo movimento logo se punham a levantar vôo. Uma coisa era certa : cada criança que subia naquele negócio parecia experimentar outra realidade. Um prazer incomensurável se estampava em cada rosto. Uma sensação de super-herói; o transformar-se num animal alado; a impressão de ser outro. O uso do objeto parecia extremamente simples. A menina sentiu um formigamento nos pés; teria que viver aquela experiência, de um jeito ou de outro. Afinal, não se tratava de um brinquedo?
Através de observação minuciosa, concluiu que deveria imperativamente segurar com as duas mãos as correntes laterais. Nunca soltá-las; jamais. Sentia-se capaz de fazê-lo, ainda que não soubesse como se posicionaria para começar a voar. Enquanto pensava no gesto corriqueiro (o ato de sentar-se numa cadeira), ouviu a voz da avó chamando o seu nome. Iam embora. Tirou os olhos das cadeiras voadoras, e foi como se retornasse à Terra. Viu-se envolta por baldes, colada na areia, e sentiu inveja daquelas crianças. Quando iam ao parque, levantavam do chão. Ela mesma passava grande parte do tempo nos parques, e a única coisa que podia fazer para tirar os pés do chão era subir num trepa-trepa, ou pular corda. Nada comparado com aquilo. Nada de sentir o vento nos cabelos, o frio na barriga, as pernas livres... Nada de decolagem. Pensou que o escorregador, certamente o seu brinquedo preferido, causava-lhe um pouco dessas coisas. Mas a sensação não durava o suficiente para sentir-se estrangeira, como se chegasse ou partisse de um lugar distante. Nos três segundos de uma descida não chegava nem a perceber que estava realmente escorregando.
À noite, já quase fechando os olhos, uma imagem não lhe saía da cabeça : o movimento de panos. As saia das meninas esvoaçando, como se dançassem uma música que ela, na sua curta vida de criança, nunca tinha escutado. Lágrimas sentidas lhe subiram aos olhos. Prometeu a si mesma que no dia seguinte sentaria numa daquelas cadeiras.
A avó resolveu comprar legumes na venda. Na barriga da menina, caracóis e borboletas movimentavam-se incessantemente desde a noite anterior, causando alvoroço. Já tinha o plano todo na cabeça : uma vez que passasse o portão do parque, correria sem olhar para trás, em direção às cadeiras. Esperava que uma delas estivesse vaga. Isso porque tinha medo dos próprios sentimentos:  e se na hora lhe faltasse coragem? E se vacilasse diante da habilidade das outras crianças? E se simplesmente não conseguisse fazê-la voar? A pouca experiência e a falta de autonomia ainda não lhe tinham permitido saber o que valia. Tratava-se de uma curta existência. Mas até alí, mais de uma vez, acreditava ter feito prova de coragem. Diziam dela que era “destemida”, e ainda que não soubesse exatamente o que a palavra queria dizer, à menina lhe parecia que contava algo sobre como lidava com as dificuldades. Quando caía, se esforçava para não chorar. Quando dormia, fechava a porta. Quando uma vez perdeu a presilha que tinha acabado de ganhar, não disse nada a ninguém. Também não contou a ninguém que o seu bicho preferido não era o gato, mas a taturana. Desconhecia qual seria a sua própria reação diante do desafio. Mas a vontade de subir numa daquelas coisas era tão grande, que se não tentasse pelo menos uma vez, sentia que nunca mais teria sossêgo na vida. O seu coração, ainda pequeno, batia mais forte do que tambor.
- Que maravilha estão estes pêssegos!
- A senhora vê, ainda não estamos no verão, e já vão dando feito banana... Este ano promete!
Tentou se concentrar nas frutas e nos legumes do carrinho. Não queria sentir raiva da avó. Mas sentia. Muita. Porque tinha que comprar mais frutas e legumes se a sua cozinha estava repleta de comida? Porque sempre tinha que conversar com todos os vizinhos, vendedoras, com os cachorros e gatos, e papagaios, e os porteiros, taxistas, vidraceiros, e com todo mundo que caísse na besteira de lhe dizer um simples “bom dia”? Porque justo hoje tudo demorava em acontecer? A menina sentiu que se não saísse rapidamente da mercearia, se transformaria numa nuvem carregada, e sairia chovendo por aí.  
No momento preciso em que os seus braços viravam ao translúcido, ouviu a avó se despedir “esse mundo, cada vez mais...”. Num átimo voltou a se sentir inteira, e decidida. A espera tinha aumentado as ganas da menina. Como em seu plano, e sem nem perceber o caminho entre a venda e o parque, empurrou o portão de ferro com os pés, e disparou. Não olhou para trás. Não disse nada à avó. Corria, e tinha a impressão que já nem tocava mais o chão. A única coisa que fixava era a cadeira mágica. Uma cadeira vazia que lhe dizia “te esperei toda a vida!”. Se aproximou o máximo que pode sem tocá-la, e postou-se diante dela com respeito. Como para dizer às outras crianças “ela me esperou a vida toda”. Custou à menina dar-lhe as costas. Contemplou o parque sem realmente enxergar as pessoas, os brinquedos e os bancos à sua volta. Como se deixasse para trás algo importante, uma cidade, um país, um planeta. Embarcava para uma viagem, cuja as razões lhe eram desconhecidas, mas que sabia necessária. O momento em que agarrou as correntes com as mãos foi o mais delicado. Lembrava da regra, a mais importante : nunca soltar as correntes. Mas então uma dificuldade inusitada surgiu à menina : como tinha as mãos ocupadas, não podia fazer uso delas para subir no banco. E como o banco estava suspenso pelas correntes, ele ia de um lado para o outro, acompanhando o esforço que ela fazia para se sentar. Três tentativas frustradas. A dúvida tormou conta da menina: as bochechas quentes de vergonha, as mãos vacilantes et suadas. Estava a ponto de largar as correntes, quando surgiu ao seu lado uma outra menina.
Até aquele momento, concentrada na sua aventura, nem sequer tinha olhado para as outras cadeiras. A menina ao seu lado devia ter a sua idade. Um vestido vermelho, combinando com duas fivelas e duas chiquinhas, que seguravam duas longas tranças. Encostou no brinquedo como quem tem o hábito. No entanto, conteve-se. Ao invés de entregar-se ao prazer da decolagem, postou-se de costas para a cadeira, segurando as correntes. Alinhadas, as duas pareciam se preparar para o maior salto de suas vidas. Brincadeira era coisa séria.
Uma olhou para a outra, e sussurrou “tudo bem, tudo vai ficar bem”. A menina fixou os olhos na vizinha, porque foi como se lhe chamassem... “vem, faça como eu!”. As duas, concentradas, aguardavam o próximo passo. Momento suspenso no tempo feito pena de passarinho. De súbito, a vizinha pulou na cadeira, segurando as correntes. A menina, sem pensar, fez o mesmo. E de repente, seus pés já não estavam mais no chão, e o impulso inicial deu lugar à oscilação, a um vaivém, mais rápido, mais rápido, mais rápido, e o seu vestido voando no ar, e o seu corpo dançando com a cadeira, e os seus pequenos braços, extensão das correntes, o sorriso, a risada, o prazer de voar! A menina olha o parque. Do alto, árvores aparecerem e desaparecerem, o céu e o chão, o frio na barriga, parece até que vê a realidade de ponta cabeça. Já não sabe mais distinguir a parte de cima da parte de baixo. As coisas do mundo não tem mais lugar fixo, não tem mais peso. Flutuam no espaço da existência. Ela olha para o lado, e numa expressão de felicidade incontida, agradesse a outra menina. Desejou que aquele momento não acabasse nunca mais. Não sabia como parar, e não se preocupava com isso. Estava suspendida, pendurada, sustentava-se no ar...


- Menina! Já é mais de meio-dia! Desce do balanço, que a vida é mais do que um vai e vem!     

22 mars 2017

Ambientalizar-se

Esta noite pulei de um precipício - qual a diferença entre um precipício e uma montanha? O precipício é o fim do caminho, e a montanha, tudo o que está antes de chegar ao fim do caminho? Enquanto caía, pensava: “é muito alto pra eu pular. Alí bem longe está o mar. Como vou fazer para aterrissar? De maneira profunda e dolorida? Vou me afogar?”. Imaginava o impacto do meu corpo na água. Devido à distância de onde saltara (dalgum ponto já imperceptível, ainda que a queda se desce de maneira suave) e da velocidade na qual caía, via o meu corpo esmagado pela água feito um pedaço de concreto que se desprende de suas cordas de aço numa construção. Mas não foi o que aconteceu. A longa distância percorrida e a suavidade da queda fizeram da força cinética (e não do meu próprio peso) um afago. Caí devagar, e ao entrar na água meio turva, não senti nem frio nem falta de ar. Apenas pensei : “aqui estou imersa num lugar que me é desconhecido, cuja textura agradável não é suficiente para apagar a suspeita”. Eis que avisto um corpo; um outro ser vivo se mexendo na turpitude. Não se aproxima, de maneira frontal. Se move de um lado para o outro. Eu sei o que é. Percebo mais um ao meu lado, mas ele logo desaparece para dar lugar ao primeiro tubarão, cuja cabeça é bem maior do que o corpo. Ação inconteste, ele vem em minha direção, se movimentando para a esquerda, para a direita, devagar. Antes que abra a boca, o meu medo é tamanho, que mesmo sabendo que se trata de um sonho, eu abro os olhos, forçados pelo pavor. Mas e se não me engolisse? Ou se, abocanhando eu toda, me levasse para dentro da sua barriga, onde não existiria mais espaço para a dúvida?          

12 mars 2017

Além do cimo da árvore II

Algo me impede e me compele, ao mesmo tempo.  Até que me torne incompressível. Gostaria de me inventar naquela floresta de pinheiros, nevoeiro estranho à alma, visão panorâmica, como se eu fosse uma águia, ainda que tenha medo de altura. Não sei bem se desejo mergulhar, nem sei para onde, exatamente, um pássaro deste porte se dirige. Provavelmente mergulha em direção à uma presa. Quanto mais descorro, mais me afasto daquele lugar inexistente e misterioso. Me parece um pedaço de passado. Ou um espaço suspenso. Mais pertence à imensidão, ainda que me faça me sentir numa estância. Não adianta insistir. Quando foge, deixa estar. Depois volta. 

01 février 2017

Gênese

Através do feixe de luz, pequenas partículas de pó dançam, como se se sustentassem no ar. Pensei : “ eu sou uma dessas partículas, nunca me encontro num mesmo ponto. Nunca estou onde deveria estar.” Uma matéria imprevisível. Incompressível.

Senti pelos meus pais. Sempre me procurando alí onde eu não estava. Por vezes, tomados pelo sentimento de amparo, desabafavam “aqui está”. E no momento seguinte, escapulia. Sem que percebessem. E mais uma vez deviam dizer a si mesmos : ”onde essa menina guarda o seu coração?”.

Pequenos indícios de matéria, transitando de um lado para o outro. Impossível segurá-los com as mãos.

Outro dia ouvi uma mulher contar a sua experiência da morte iminente. Um momento de plenitude, um conforto inesperado. Quais podem ser as possíveis razões da existência? A matéria, esta que conhecemos, exposta às provas, às peculiaridades de um estado, de outro. Ela diminui, dilata, evapora. Molda-se pelo efeito do vento. Cai, ou encontra-se parada num mesmo lugar anos a fio.

Às vezes em que estamos, meu pai ou minha mãe e eu, num mesmo lugar, lembro-me daquilo do que sou feita. Momentos que parecem ... como se cortássemos o tempo em pedaços. Não são retalhos de uma grande colcha. Não dão continuidade a coisa alguma. São quadros que valem pelo que são, no momento em que acontecem.

Uma hora a poeira baixa. Sob o feixe de luz quase extinto, uma ou outra partícula resiste à atração. Essa força desconhecida que impele em direção à grande matéria, como se fôssemos magnéticos.

Afinal, algo terá valido mais a pena do que estes pedaços de tempo, decerto esparços, mas completamente preenchidos pela matéria, plenamente envoltos pelo coração?    

15 décembre 2016

Além do cimo da árvore

Trata-se de um lugar especial. Parece que está sempre aqui, do meu lado, sob meus ombros, logo acima da cabeça, pairando no espaço invisível, imaterial. Mas o seu acesso é extremamente restrito. Não posso decidir sozinha “hoje vou dar uma passada”. Não é desses lugares em que damos uma passada.
Para que uma passagem se abra (e que eu, de repente, me encontre alí sem entrever as premissas de uma mudança), certas condições devem estar reunidas. Então, é como se uma fissura rachasse a realidade de uma ponta à outra. Mas eu não saberia nomear as exatas condições. Tenho apenas a impressão delas. O espírito, numa dada conjuntura de sentimentos. A noite que cai, escura, ocupando todo o entorno feito um borrão. A claridade seca de um dia de outono.
Nessas horas é como se tudo se resumisse a um só ponto. Eu continuo dona  dos meus próprios movimentos, e todos os outros elementos estão presentes, mas tudo se comporta como uma existência que muda de entonação. As sensações mais presentes, mais marcadas, parecem me carregar para além daquilo que conheço. A vivência de todos os dias torna-se apenas uma história. Novamente me vem a sensação : algo paira sob a minha cabeça. A fissura se abre, eu me meto dentro dela, e no momento seguinte sou eu quem paira sob a realidade.
Tento escutar um indício vindo de algum canto. Como se não tivesse o hábito do desconhecido, e esperasse por uma explicação. Mas não há nada além do silêncio. As palavras continuam ondulando, invisíveis, mas fazem parte de uma matéria compacta. Como se eu, as palavras e todo o resto fôssemos um bloco. Depois de um certo tempo, quando o espírito se acostuma com a nova vibração, a individualidade deixa estar, e expande-se em mil pedaços. O barulho é surdo, estufado.
Quanto mais procuro descrever este lugar, mais me afasto dele. Como se desfiasse, à medida que costuro as palavras. Não é objeto, para que se observe tentando a todo custo lhe colar um pensamento. Não lhe cabe descrição. Não se pode abarcá-lo. Não se pode segurá-lo com as mãos.
De repente me lembro das páginas deste livro infantil. Me parecia estranho, porque na maioria delas faltavam cores. Tinha essa menina, que passava de um lugar à outro, segurando no rabo dos pássaros, mas a paisagem era sempre a mesma : uma espécie de aridez, própria à página em branco. Imaginava um lugar distante, porque certamente a branquidão da paisagem remetia à neve. Um pólo, um país onde chaminés cuspiam fumaça incessantemente. Campos nevados. Mas de uma maneira estranha a menina não parecia sentir frio. Usava um vestido curto de criança, esvoaçante à maneira dos pássaros. Foi assim que uma impressão colou-se na memória dessas páginas : a impressão de que o lugar em que se encontrava esta menina era um lugar inexistente, ou no mínimo diferente da realidade. Uma fenda no tempo.
Hoje o dia esqueceu de amanhecer. O céu está baixo, as luzes dos lampadários estranhamente acessas. É possível respirar a iminência de um acontecimento. Mas tudo demora em se fazer presente. E como se o dia exercesse uma pressão sob meu corpo, e que a matéria não soubesse mais para onde ir, o meu corpo atravessa lentamente a fissura, e me encontro mais uma vez neste outro lugar.

Certamente, a vibração inusitada das partículas da matéria resultam, de uma maneira ou de outra, na flutuação. Como se espalhando-se, os menores pedaços de cada coisa (pessoa, palavra, nota musical), vacilassem e ocupassem toda a bolha em que se encontram. Pois é essa a sensação que me provoca, esse lugar aquém do nível do mar, além do cimo da árvore : um meio aquoso, fluído, esvoaçante, animado. Logo mais, quando me puser a tentar cerceá-lo com a razão, me escapará mais uma vez, deixando-me para trás, ou no mesmo lugar em que me encontrava no instante anterior. Invariavelmente sinto a tonalidade da realidade mudar, quando por um motivo que me é desconhecido e misterioso, atravesso a fresta que se abre. Mas nunca percebo o momento em que me descolo deste lugar especial. A mim, só resta deixar-me estar. Fecho os olhos, me esqueço, agarro nas últimas sensações, num esforço de manter toda partícula nesse mesmo timbre peculiar. Aí está a realidade a me chamar a mim mesma.  

26 octobre 2016

Homenagem à B.

B. tem uma franja cortada rente na testa. Os cabelos cor de vinho Bordeaux, e os óculos de aro grosso, preto, moderno. O prazer de escutar a sua voz, de pessoa ex-fumante, pronta para a recaída. Ela usa colares (dois ou três) de pérolas coloridas sob uma blusa estampada. Não sei se usa brincos. Penso que brincos não combinam com B., e ao mesmo tempo, não há como pensar em B. sem brincos. É que o seu cabelo cobre as orelhas, como se não existissem. Deve ter os seus 60 anos. Dinâmica, e old school. B. se destaca dos outros membros da mesa pela sua feiúra. Não há como negar, por mais que se insista na benevolência e na comunicação positiva. É feia. B. me faz pensar que existem dois tipos de feiúra. Aquela que nos vem primeiro à mente, repulsiva, desagradável. A feiúra de B. é outra : uma manifestação da natureza. Uma maneira de estar presente na realidade. Uma afirmação. Sempre este a priori : é feia, consequentemente, será menos que os outros. Mas quando B. pega o microfone e comunica uma mensagem, ao mesmo tempo previsível e cheia de charme... tudo embalado pela voz rouca do tabaco... B. se impõe, e transforma os seus vizinhos em pequenos seres uniformes. Porque nenhum deles é feio; mas tão pouco encarnam uma beleza de encher os olhos. Clássica, ou surpreendente. Encarnam a mediania, a mediocridade. Assim, B. (Brigitte), me leva para outros lugares. Eu a imagino conversando com os seus gatos (dois ou três, peludos). Eu imagino a cidade pequena de onde vem. A relação extremamente amigável e familiar que mantém com a maioria dos moradores (o padeiro, o açogueiro, a chocolateira, as crianças do vizinho...). Sua solicitude com o próximo, e principalmente com o seu namorado (cujo encontro se deu numa reunião organizada no salão de festas, sobre a fabricação de terrários caseiros). De toda a sua presença, é o seu nome que mais me fascina. De certo, o nome ao qual se juntam o aspecto, a postura, a vestimenta. Mas para mim, são apenas apetrechos. Decoram e constróem o todo em volta deste nome : Brigitte.  

Pequeno achado


É como se estivesse impregnado.
Em cada canto do meu bairro
no meu café, na esquina.
E eu, na espreita, esperando algum acontecimento.
Mas não há de haver nenhum.

Vontade de esticar o espaço,
o tempo-espaço.

Criar uma divisão entre o agora e o além.
E de repente, estas cenas de vai-e-vem.

Vontade de escarrar no tempo linear.

Se passar por esta rua (sem que eu provoque o acaso),
olhe para a sua direita,
veja-me sentada a esta mesa
lance-me um aceno, numa expressão de familiaridade.

08 septembre 2016

Alma penada


Essa noite sonhei que você estava bem alí, ao meu lado, gelado como um cadáver. Magro e branco. E ainda assim se agarrava em mim, segurava o meu braço. E o mais extraordinário : aquilo me agradava. Uma mulher tentava, de maneira sutil mas com empenho, puxar-te para longe. E como o seu esforço não surtia efeito, abraçou-nos os dois, e disse algo como “ah! A sua querida...”. Talvez o sonho seja um indício : logo mais esse sentimento (circular, de consistência densa e macia, inteiriço) desaparecerá. Poderemos enterrá-lo. Mas até lá, quase não explico a mim mesma o sentimento de plenitude que o seu braço, ainda que frio, fraco e branco em demasia, provocou em mim.
Toda vez que me surge, antes em carne e osso, hoje numa visão, você é assombração.
A mim me parece que a nossa vida é feita dessa procura incessante pelo mistério. Alcançar aquilo que não conhecemos (sem cheiro, sem corpo, sem voz), tocar, ainda que de maneira breve, aquilo que não nos foi revelado. Procuramos almas invisíveis. Uma existência pressentida, e no entanto ignorada... Talvez, depois da morte, outras vidas. Talvez uma razão. Uma evolução, uma luz, uma plenitude, uma imensidão qualquer. Mas talvez (e muito provavelmente) apenas uma distração.
Quando em vida, você era um mistério para mim. Por mais que quisesse me aproximar da Humanidade, entender outrem, não desvendava as suas razões. Um dia sim, um dia não. Um dia noite, um dia dia. Um dia meu, um dia d’outras. Um dia aqui, um dia lá. Seus movimentos me davam náuseas do alto mar. Eu, pequeno ponto na tempestade. O céu carregava-se de nimbos, que antes mesmo de desaguarem feito tromba, pareciam formar um panorama revolucionário.
Nós, aqui, ocupando todo o espaço, alinhavados em problemas e esperanças. Contamos o tempo, separamos os períodos, classificamos os acontecimentos... mas nada de escutar um sinal vindo de outro lugar. Apesar de todo zumbido, o silêncio abissal do que nos circunda.
Se eu fecho os olhos bem forte, se me concentro, se a evidência pedante da realidade me concede o tempo de um suspiro; se todas essas condições se reúnem ao vaga-lume presente na alma, consigo quase te tocar. Um, dois, três... volto a sentir os olhos fechados, as pálpebras pesadas e presentes. Aperto os olhos, quero estar neste “algum lugar”. Desiludo. Durante o dia uma coisa e outra ainda suscitam a sua imagem, mas o que prevalece (assim como numa dinâmica mais abrangente: o universo, a termodinâmica, o destino de todo pedaço vivo de matéria) é a frieza do que a morte embala.
Parece que de nada servem nossos enormes telescópios, robos teleguiados, missões espaciais. Por vezes um fato torna-se um começo de alguma coisa (luzes estranhas, uma frequência, a sombra de uma foto...). Mas a coisa sempre acaba por se transformar em história. O silêncio do espaço cai sob nossos ombros. Abáfa-nos.  Excessivo, o manto da solidão. Nascemos de uma coincidência tão insignificante, sem ganas de reproduzir-se. Exigimos uma explicação. Mas ela não vem, ou não existe. Sobre a vida (e o seu fim) nem sombra de uma mínima razão.
Existe o conhecido, e o outro lado. Na maior parte do tempo me contenho nesse espaço denominado realidade. Mas ocorre, algumas vezes, de eu ter a sensação de outro lugar. Um sem nome. Impossível. Enquanto resultado de uma coincidência insignificante, me abstenho. E no entanto, persiste em mim a fissura, como uma passagem secreta na qual eu mesma poderia me abismar. Quem sabe não é aí que você mora agora?       

04 août 2016

Rádio de pilha

Colo o meu ouvido no pequeno amplificador do rádio de pilha. As melodias, umas seguidas das outras, me transportam à outro lugar. Um espaço inexistente. Extremamente agradável, cheio de sentimentos e potencialidades. Tudo, e tanto, que sinto meu peito se encher daquilo que é invisível, e incomensurável. Parece até que está “a ponto de”, aproximando-se perigosamente do instante que antecede a fragmentação. Essas canções, reminicências, há muito grudadas nas paredes dos filamentos musculares, confundem-se nas notas lançadas pelo rádio, e libertam-se de um sono profundo, pairando nos corredores do meu próprio corpo. Acordam outras lembranças : da terra, do amor, das sinuosidades e reviravoltas. Através do gesto trivial (ligar o rádio de pilha), me transformo num bocal repleto de memória, prestes a transbordar esparramando-a no presente.  

24 juin 2016

O peso das coisas I

O calor surge, me pegando desavisada. O casaco que retiro do corpo torna-se chumbo. Um entulho nas mãos, que entrava a minha liberdade. O peso das coisas, assim como o resto da realidade, encerra a própria verdade nas circunstâncias. Fosse a paisagem diferente, camadas de neve cobrindo o asfalto, resfriando os corrimões de ferro, o vento mordendo tudo o que encontra pelo caminho, esse mesmo casaco que seguro como se tivesse nas mãos um bicho morto, seria para mim, como uma segunda pele. Desejaria ardentemente – desejo bem cabido, devido ao contraste entre a temperatura ambiente e qualquer derivado da palavra ardor - que fosse realmente uma carcaça, pra me enfiar dentro dela feito verme.

Como já se disse do peso da existência : sutil, aérea, mas insustentável. Ou insuportável, dependendo dos óculos.  

05 juin 2016

Esmoleira

Quando comecei a ver aqui e ali um pedinte segurando um filhote de cachorro ou de gato, a angústia tomou conta de mim. Então as pessoas se sentiam mais tocadas por um pequeno animal do que por aquele que, sentado ao lado do bicho, buscava um jeito de se alimentar, esquecer, se locomover ou comprar cigarros? Pensavam : “Pobre homem... o cachorro lhe faz compania. Mas se nem tem o suficiente para o próprio sustento, o que dará de comer ao filhote?!?”. Na tristeza da pobreza, além de aguentar estorvos decorrentes da situação, há de se fazer uso de sensibilidade para ganhar uns trocados. Cada indivíduo tenta encontrar um jeito de tocar outros indivíduos. E visto que mais o tempo passa, mais a riqueza torna-se exclusiva, não há condição particular para se encontrar em meio à dificuldades financeiras. A pobreza não é própria à ninguém, mas aí está algo que tende a se democratizar. Fazer apelo à alma de poeta, à astúcia, aos dotes vocais, aos conflitos internacionais, à veia cômica, à pena... todos os caminhos para arrecadar umas moedas buscam tocar a alteridade.

Foi assim, afundado em tais pensamentos, que decidi examinar maneiras de preencher o espaço vazio da esmoleira. Nas ruas, no transporte, nos bancos da praça, observar aqueles que pedem dinheiro é uma maneira de entender o ser humano. Interrogar a alma que dá “uma esmola”, “uma ajudinha”, “um trocado”... o que faz com que ponha a mão no bolso, recupere umas moedas, e às vezes mão na mão, às vezes jogadas despudoradamente num prato velho, se desfaça delas, transferindo-as ao outro? O outro; procede à uma intervenção sentimental sem nem se dar conta. Certamente outras preocupações pululam na cabeça.

Pequeno, depois de percorrer a feira com a minha mãe, sentava com ela nas cadeiras improváveis de uma barraca de pastel, e invariavelmente uma criança vinha nos abordar. Minha mãe explicava : “Olha, dinheiro eu não dou, mas se você estiver com fome, eu compro um pastel.”. Aquela situação me deixava extremamente sem graça. A vergonha de comer com um desconhecido se misturava com a vergonha de também ser criança, muitas vezes da mesma idade do pequeno pedinte. Na maioria das vezes a criança comia o pastel com vontade. Mas eu só conseguia pensar : “na vida precisamos de outras coisas além de pastel... como ele vai fazer se todo mundo pra quem pedir dinheiro lhe comprar um pastel?”. Minha mãe me explicou que muitas vezes as crianças vinham a mando de um adulto, que acabaria gastando tudo em bebida e cigarros. Melhor mesmo era garantir que o pequeno pedinte guardasse alguma coisa no estômago. Eu comia o pastel apressado, querendo logo voltar para o conforto do meu lar, e esquecer a situação, e o adulto que cuidava de tal criança, que na minha cabeça se aparentava ao homem do circo da história do Pinóquio, que transforma crianças em burros. Mas no fundo, que acabasse comprando cigarros ou pagando a conta de luz, o adulto por trás da criança tinha entendido um princípio deontológico transformado em lugar-comum : a pobreza na infância é tragédia, a pobreza de um adulto é destino.
    
Ultimamente a alteridade andou por outros caminhos. O lugar de uma criança é em casa ou na escola. E se antes cruzá-la na rua merecia atenção, cada vez mais a imagem torna-se intolerável. Hoje em dia um adulto que pede esmola precisa de ajuda, mas um adulto acompanhado de um pequeno pedinte não merece consideração. A irresponsabilidade do adulto toma o lugar da necessidade na sensibilidade do doador. Afinal, porque se impõe, de maneira violenta, expondo desgraça? Outro lugar-comum. Daí a proliferação de pequenos animais. No começo eram filhotes de cachorros e gatos. Em seguida vieram os coelhos. Qual será o próximo animal capaz de amaduar o coração do passante sem contrariá-lo?
  
Situações conflituosas de terras distantes também tornam-se visíveis nos corredores do metrô, ou nos sinais de trânsito. Famílias inteiras (a mãe, o pai, a avó, o tio, um adolescente, duas ou três crianças, um bebê de colo) amontoam-se num pequeno espaço com cartazes onde se vê marcado “família síria”. O passante se pergunta “serão mesmo sírios?”, e dependendo de como acordou naquela manhã, com quem cruzou no elevador, o tempo, os afazeres do dia, o fato de estar apaixonado ou de luto, por onde viajou, as origens dos bisavós, e de uma série de outras conjunturas, decidirá em favor do gesto esperado, (a mão que adentra a bolsa, ou o bolso do casaco buscando uma ajuda), ou apertará o passo. Nota-se que quando o passante, abordado pelo pedinte, decide somente passar, a cadência dos passos aumenta. Parece que deseja correr pra longe da pobreza. Mas quem vai condená-lo? O pedinte, se um dia trocasse de papel com o passante, certamente teria ganas de sair correndo o mais longe possível da pobreza.   

Hoje de manhã um homem entrou no vagão, e cantou uma música de Georges Brassens. A alma nua; sem instrumentos, sem acompanhamento, sem microfone nem nenhum outro artifício. Uma coragem admirável. Sem discurso, entrou no metrô, pediu desculpas e disse que cantaria uma música. De certo, era afinado. Tinha a voz doce. A relação entre a aparência e a doçura era disparate : tinha roupas (poucas para a época do ano) sujas. Vía-se que dormia num lugar e noutro, e que nunca tinha feito da música um ganha-pão. Pensei nos trocados dos quais me desfizera a pouco comprando um jornal, e me arrependi. Meus bolsos estavam vazios. Demorei a perceber a moça, porque segurava um livro, e porque me perdia, como ela, na melodia. Fingia que lia, mas o sorriso tímido que esboçava dizia algo mais. Aquele homem lhe tocava a alma; seus olhos fixavam as páginas, sem dechifrá-las. Olhos úmidos. A canção lhe lembrava um momento perdido no tempo e na correria da vida, e o fato de ouví-la naquela manhã, de forma inesperada, fazia do instante um poema. Quando saísse do vagão, questionaria suas escolhas, se recordaria de uma pessoa que amara, de um principio deixado de lado, da simplicidade, de uma maneira diferente e esquecida de viver a própria vida.     
      
Assim como a moça, eu também deixei o vagão pensando numa maneira diferente de viver a vida. Não se trata de ironia ou de parlatório. Impressões sem sentido. Sentimentos jogados ao vento. Observar as intervenções dos pedintes não denota voyerismo. Trata-se de uma homenagem. Cada vez mais difícil é saber como alcançar o outro. Pois é o que tentam fazer todos os dias os milhares de pedintes, quando procuram botar algo o estômago e na esmoleira.

12 mai 2016

Pequeno canário

As ruas ainda estão desertas, o dia mal começa a raiar. Mas o calor já é denso, presente. Parece que sabe que servirá de cenário. Caminho olhando para os meus próprios pés. Sem coragem de olhar para frente, sem nada por dentro, como se andasse nua da alma, apenas a minha sombra se finca na realidade, cada vez mais evidente. Daqui a pouco inúmeras pernas cruzarão as calçadas, as ruas vão se encher de verde e amarelo, pessoas aplaudindo, apitando, discutindo, dando risada. Nessa hora espero estar bem longe daqui. Estas ruas são como minhas, sempre caminhei por este asfalto e paralelepipedos. Mas daqui a pouco desejo não pertencer mais a este lugar. Vou tomar um sonífero, acordar só no dia seguinte, agir como se não tivesse acontecido nada. Talvez acendam a churrasqueira, gargalhem tomando uma caipirinha, contentes em participar do “orgulho nacional”. Como em jogo de Copa do mundo.
De onde os observo, parecem inocentes. A alegria sempre parece inocente. E no fundo eu gostaria de estar com todos os outros, assim como em jogo de Copa do mundo. Ainda que acredite que de nada serve o orgulho nacional. Só cria problemas. Uma bobagem. O mundo é instigante, saboroso, infinito para se atardar em qualquer orgulho, seja ele qual for. Mas a primeira impressão não deve mascarar a natureza dos fatos. Algo está para acontecer neste dia. Uma iminência fúnebre. Dali a pouco retirarão um tijolo de uma parede mal construída. E o calor, como se fosse um indício, anuncia o desabamento. No dia seguinte, não haverá mais nada à que se fiar.

(E estas pernas vestidas com as cores da bandeira, sentadas confortavelmente na frente da televisão, ou agitando-se nas ruas, tomadas por um delírio frenético? Participam da derrocada. Pisam em fundamentos já quase inexistentes.)


Um passarinho cruza o ar viciado. Coitado, acaso da natureza, é verde e amarelo. Antes fosse azul anil.     

06 avril 2016

Faíscas

O relógio roda. A sala de paredes nuas, especialmente iluminada para a ocasião. Nada parece quebrar a concentração. A inspiração demora a chegar. Como se fosse uma sala de espera, o ambiente torna-se menos familiar. Por onde andará? Navegando noutras almas. Horas de espera se transformam numa imobilidade sem nome. Interferência. O barulho da televisão dá outra cara à sala; esta mesma sala que pouco antes abrigaria o nascimento das palavras, o fantástico, o sublime, os acontecimentos, a continuação. O barulho ocupa o espaço, como uma pessoa. O tempo parece não servir a coisa alguma. Ele simplesmente passa, sem razão. O medo de desligar o aparelho. E se nada acontecer, nunca? Se nenhuma palavra surgir, nenhuma história? Apenas a ausência de algo que nem bem se pode explicar. Um vazio só. As paredes da sala sobrevivendo ao movimento do relógio. Musas fazem reviravoltas no telhado, mas as paredes, e o espaço, inalterados. Como se tivessem personalidade, e vontades, e decidissem pela indiferença. De repente um rasgo : algo cruza o ar. Nada que se vê, apenas um cisco que se materializa numa afirmação. Nenhum milagre, ou luz divina, e nem fogos de artifício. Mas heis que surge uma palavra, duas, e mais outras, e etc etc à correr pelas veredas de papel. Faiscando por aqui e por alí, de maneira temerosa. Parece até que intentam mais do que um mero fogo de palha.     

23 mars 2016

Impasse

Alí está o homem novamente. Sentado em meio ao caos matinal, com as mãos segurando o rosto. Apresenta uma expressão de sofrimento. Algumas pessoas observam o homem, no curto espaço de tempo entre a abertura da porta do metrô, a massa compacta que sai, a massa compacta que entra. Ouve-se a buzina, e as portas fecham num estrondo. Outras pessoas observam o homem; ninguém lhe pergunta como está.
É japonês. Raramente vi um japonês sofrer. Sempre estóicos, sempre kamikazes, sempre de acordo com o resto do ambiente. Se estava alí sentado, sofrendo num lugar tão inapropriado, é que devia sentir uma dor aguda. Pela expressão não era possível saber se se tratava de uma dor da alma, ou de uma dor do corpo. Talvez fosse apenas uma dor nos ouvidos, daquela que desce pela garganta, ou na direção inversa, que começa atrás da língua, e sobe até os ouvidos. Uma inflamação. Uma bactéria. Ou talvez sentisse uma dor tão profunda (uma separação? Uma decepção? Uma traição?), que ela lhe dobrava em dois, encurvando-lhe as costas, fraquejando os joelhos. Tentava reencontrar um equlíbrio, um esboço de estabilidade. Para solucionar o primeiro problema bastaria um “anti” alguma coisa... Anti-inflamatório, antibiótico, um anti-dor. Mas se o problema tivesse origem num sentimento, o caminho tendia a ser tortuoso. Seria preciso mais do que uma solução para alcançar a superfície.
Isso foi na primeira vez em que o vi. Observei-o uns instantes, mudando a duração do trajeto cotidiano. Esperei que alguém fosse vê-lo, falar com ele, consolá-lo, chamar o bombeiro. Ou que uma pessoa, dessas que cruzavam o seu caminho, apressadas, de repente se postasse diante dele. Sentindo outro corpo onipresente, o japonês sairía do próprio torpor, abaixaria as mãos, levantaria a cabeça, e frente aos traços conhecidos, sua boca se abriria num sorriso. Foi o que eu esperei que acontecesse, no fundo por uma razão extremamente egoísta : que eu pudesse seguir caminho tranquilo. Mas ninguém veio lhe tirar a angústia das mãos. Ele permaneceu alí, escondendo o rosto, franzindo a testa numa expressão de dor, o corpo contraído, imóvel, destoando da massa informe que se infiltrava metrô adentro. Depois de alguns instantes a participar da sua imobilidade, e de sua dor, eu resolvi mergulhar no momento seguinte, deixando o homem para trás, sem lhe prestar qualquer tipo de ajuda.
Nos dias que se seguiram sua imagem me voltou à cabeça, cada vez que passei pelo mesmo corredor, acompanhando o fluxo, apressado. Eu assim, uma molécula, uma partícula, o menor pedaço de um grande bicho, que se movimentava sem hesitação. Ele, desintegrando-se, deixado de lado, desaparecido. E se tivesse conversado com ele, esparramando uma partícula na outra? O homem teria algum dia pertencido ao fluxo de passageiros, ou era a primeira vez que se encontrava naquele corredor de metrô? Porque sofria? Durante uma semana, tentei reconhecer sua feição nos inúmeros rostos que cruzaram o meu caminho, em vão.
Quando o vi pela segunda vez, pensei num déjà vu. Fechei os olhos. Tentei imaginar outro lugar; uma floresta densa, um céu estrelado. O cheiro do metrô me trouxe de volta ao momento presente. Ele estava realmente alí, sentado no mesmo lugar, na mesma posição, as mãos segurando a expressão de dor. Exatamente a mesma dor. Como podia uma dor se repetir duas vezes, com a mesma intensidade? Tratava-se certamente de uma dor física. Ou, ápice da desgraça, teria perdido duas pessoas queridas num curto espaço de tempo. Ou o homem terminara uma relação, se arrependera, e terminara a mesma relação de maneira definitiva, tudo em uma semana. Ou simplesmente fingia... Esperava ansiosamente que alguém, uma única alma, se desgrudasse do hábito da pressa, do cotidiano, e viesse lhe perguntar : “está bem?”.
Talvez tenha sido a dúvida, ou o espanto em rever a mesma cena, tão peculiar, que me acompanhara e me entristecera. Não me decidi a falar com ele. Durante uma semana eu repetira a mim mesmo uma questão que permanecia sem resposta : porque não o tinha abordado? Porque deixei aquele homem sentado, sofrendo sozinho?”. E agora, face à mesma cena, numa expressão de estupor, eu me preparava para continuar o caminho com passos apressados. Foi o que fiz. Ao passar pelo homem, que não pareceu se dar conta do meu olhar insistente, ou da minha presença a poucos centímetros de onde sentara, pude sentir a estoicidade que lhe era própria. Um japonês envolto num envelope. Ela lhe guardava a alma, o corpo, sem deixar que se desvencilhassem de uma certa maneira de lidar com a realidade. Me pareceu então que aquele homem realmente sofria. Talvez encenasse, imaginasse uma história, um drama. Repetia a si mesmo uma mentira. Talvez viesse todas as semanas sentar naquele mesmo lugar, punha as mãos no rosto e mergulhava na mais profunda desordem, própria à sua ficção.
Já ia se formando em mim a resolução da ação, quando me veio à idéia uma explicação, tão clara quanto uma certeza. Tratava-se de uma pessoa nada mais ordinária. Um homem, que acompanhava a amálgama e que passava por aquele lugar todos os dias. Entrava e saía do vagão do metrô, apressado, como os outros. E foi num dia como os outros, um dia sem indícios nem dobras, que o fato de uma tristeza infinita sobreveio bem alí, naquele exato lugar, bem em frente ao homem de estoicidade nipônica. Aquele mesmo homem que, sem suspeitar do que estava por acontecer, e de como o que se daria uns minutos mais tarde mudaria sua vida para sempre, tirou os olhos do telefone que segurava nas mãos, impaciente, esperando que a porta do metrô se abrisse. Foi uma questão de segundos, ao que parece, a duração máxima dos acontecimentos fundamentais. Sem uma razão certa, o homem olhou para o lado e percebeu uma moça, nova, vestida de azul turquesa. Pairou alguns segundos sob o encanto da jovem mulher. Era como se ela atirasse o seu olhar. Durante muito tempo tentou se lembrar no que pensou naquele momento; conseguiu apenas resgatar o vestígio do encantamento que sentiu. No instante seguinte, percebeu sem se ater ao fato, que o metrô se aproximava. Como se mergulhasse numa piscina, e sem mudar a expressão de serenidade que o seu rosto imprimia na realidade, a moça se jogou na frente do metrô.
Passaram-se meses. Eu descia na mesma estação, e todo começo de semana, às 9h20 da manhã, o homem se encontrava alí, escondendo o rosto com as mãos. Na primeira vez em que o vi, achei que escondia a dor intensa que sentia. Mas à medida em que se tornou mais familiar, o seu ato tomou outro sentido para mim: o japonês segurava o próprio rosto com as mãos porque conversava com a jovem. Um dia resolvi chegar mais cedo, e observar o seu ritual. Ele vinha com uma maleta, vestia um terno, afirmava a expressão de quem se encaminha para o trabalho. De repente, parava de frente ao banco, se tornava outra pessoa. Seus olhos se fechavam, sua testa enrugava, no momento em que se sentava já não era mais o mesmo. Aquilo durava dez minutos. Depois se levantava, maleta na mão, e seguia caminho. Certamente ele desconhecia as razões da moça; qual impasse tinha resultado no ato extremo? Ao observá-lo, me veio à cabeça uma curiosidade : o que dizia à jovem? À que se assemelhava essa curiosa comunicação? Ou talvez fosse ela que lhe sussurrava algumas palavras de consolo...    
Num dia em que o hábito já tinha tomado o lugar da surpresa e da descoberta, fazendo da presença do japonês um dos elementos imperceptíveis do entorno, avistei uma moça sentada no banco. Despreocupada, procurava algo dentro da bolsa. Nada dele. Nem nos outros bancos, nem no corredor, de pé, esperando pelo lugar que parecia lhe pertencer. Nenhum sinal de sua estoicidade, nem do drama ocorrido naquele curto espaço de tempo. Como se a moça vestida de azul turquesa nunca tivesse existido, e outras moças tomassem o seu lugar. As pessoas seguiam, apressadas. A realidade continuava a insistir, apresentando-se àqueles que nela se colavam de maneira incontestável. A ausência do homem provocou em mim a vertigem do efêmero. Sua história, um dia, me alçara feito laço. Agora já não pertencia mais à totalidade, que se movimentava entre os corredores, de um metrô ao outro, de forma sólida e convicta. Me aparentava mais a uma poeira, desapegada, flutuando pelo vento canalizado.
Na semana seguinte, exatamente às 9h20 da manhã, desembarquei na estação como de costume com o intuito de fazer uma baldeação. A visão do banco vazio resultou numa vontade irresistível de sentar-me. Hesitei : um impasse. Fechei os olhos, cobri meu rosto com as mãos, e como se me tocasse, um pedaço de tecido se insinuou à mim. Era seda, azul. Não sabia o que viria em seguida, mas experimentava a fascinação, o encantamento.  


16 février 2016

Desilusão III

Nunca me esqueci do gosto daquela pizza. Era uma qualquer, mas ficou na minha lembrança, com o gosto amargo da separação. Ainda não tinha me dito nada, mas o meu amor era tanto, e tão fincado nos mínimos espaços, que só de te olhar, ouvir o som da sua voz – parecia que de alguma maneira misteriosa, ela chegava torta aos meus ouvidos - percebi que tudo acabaria alí. Aquele tinha sido um dos meus lugares prediletos. Um restaurante de gosto duvidoso, com uma comida boa, lugar pra sentar, ar condicionado, música ambiente, e um número infindável de sabores de pizza. Você pediu o de sempre, sem me olhar. Fixava o garçon, como se pedisse socorro. Queria acabar logo com aquela situação. Queria se livrar de um peso. Talvez fosse o meu desespero tomando forma, ocupando o espaço. Talvez empurrasse, de maneira imperceptível, as partículas de ar, que por sua vez, empurravam as suas. Comprimindo-o. O ar foi ficando espesso; entre nós dois um nevoeiro, quase não te via mais. Você parecia já estar no momento seguinte. Aquele em que abriria o jornal, tranquilamente, deitado na cama, sem pensar em nada. Eu alí, sentia que desaparecia. E comigo, todos os momentos vividos. Você continuaria a participar da realidade, seguindo em frente, e eu, aos poucos, me extinguiria. Eu tentava desesperadamente enxergar algum traço de tristeza, compaixão, ou complacência no seu rosto, através da massa branca de ar que pairava entre nós, quando o garçon chegou com a maldita pizza. Ele ainda não tinha aberto a forma de aço, meio amassada, que costumava segurar com uma mão só. Vinha sorrindo, como de costume. Distraído, assobiando, pensando na sexta-feira. Se movia com destreza, como se a realidade não comportasse nenhuma opressão, ou como se fosse capaz de agitar-se noutra dimensão. Nem precisou tirar a tampa da forma. Através do aço eu via aqueles bichos esmagando uns aos outros, pedaços de corpos de vermes se mexendo freneticamente, queimados pelo calor do forno de barro, tentando um útimo impulso inútil porque estavam grudados no queijo derretido. O garçon olhou pra mim, com olhos maliciosos, me oferecendo um pedaço, e você,  pairando em outro lugar, tirou o guardanapo vermelho de cima do prato, afastou os talheres, e esperou que algo acontecesse. Eu não pude assistir à cena. Fechei os olhos com toda a força que encontrei. Tão fechados, que já não podia mais ouvir o que acontecia à minha volta. Tão fechados, que foi como se eu entrasse dentro de mim mesma. De repente, desapareci. Pude percebê-lo, sentado sozinho numa mesa posta para dois, saboreando um pedaço de pizza do qual escorria um fio de queijo. Você nunca me pareceu tão satisfeito.           

09 janvier 2016

Situação onírica

Como se um resquício, ou uma suspeita, ou um resto tivessem permanecido em algum lugar, indigestos. Eis que surgem, de repente; uma imagem, umas palavras, uma situação onírica. Desatam o nó de uns sentimentos há algum tempo empacotados no fundo da alma. São palavras, aquelas que esperei ouvir, de maneira incessante, sem mesmo saber que as esperava. Não teria sido capaz, antes deste sonho, de formular tal desejo com minhas próprias palavras. Não se tratava de uma vontade, ou de uma esperança latentes. Não se tratava de nada concreto, definido, algo no qual podemos colocar o dedo e dizer : “aqui está o começo de uma dor”. Andava a viver, como de hábito. Andava a fazer as coisas do mesmo jeito que vinha fazendo desde o dia em que te vi pela última vez. Com o tempo, você tornou-se mais embaçada, e nestes últimos anos, inexistente. Entenda; nem bem me lembro daquilo que se sucedeu imediatamente antes, ou imediatamente depoisMas do momento em que saiu caminhando, os braços pendurados ao longo do corpo, e suas mãos que tinham se soltado das minhas sem que eu percebesse o que estava por acontecer, me lembro bem. Ainda que tenha apagado sua feição da minha alma, ficou-me a imagem de suas costas. Nunca tivemos tempo de trocar estas palavras que me apareceram de maneira inesperada. Na época nem dizia a mim mesmo que o tempo estava à nossa frente. Ele simplesmente não existia para mim. Eu acordava e dormia, mas tudo isso fazia parte de um mesmo bloco : a realidade. E ele me parecia tão sólido quanto um monólito. Impossível movimentá-lo, nem de um centímetro sequer. Outras coisas me pareciam até então ter doído mais do que a ausência das palavras : a maneira como se distanciara, resignada; o corpo que se movia, sem hesitar; um monólito que se transforma em poeira pela força sútil de um soproMas destas imagens oníricas duas certezas me saltaram à alma. Aquilo que mais me faltou durante todos estes anos, desde o momento em que saiu andando, foram algumas palavras. Nada de explicações, porque ainda que noutras situações nos contentemos com a impressão de dar conta da realidade, nenhuma razão poderia conter aspecto abissal da solidão. O que eu precisava ter lido, ouvido, interpretado, subentendido, era umas poucaimpressões sobre aquilo que fui, em vocêPara que não seguisse na dúvida. Veja bem, apenas a minha subjetividade me parece hoje em dia monolítica, e ainda assim devo traduzi-la em palavras internas, silenciosas, mas extremamente presentes. Porque com o passar do tempo, e seus traços se tornando pontilhados, e invisíveis, a certeza de que tínhamos nos conhecido também se tornou invisível para mim. Como disse, só me sobrou a sombra de suas costas, um pedaço de vestido, nada que eu possa tomar por algo além daquilo que existe em mim. Mencionei uma outra certeza, nada mais inconsistente, escorregadia. Talvez trate-se de uma intuição.  Aqui está : mesmo se as coisas são feitas de pequenas partículas, as relações de sentimentos, o cotidiano de ações recorrentes, o espaço-tempo de curvas, o cabo da ponte de aço, o sedimento de milhões de anos, o amor de imensidão... nada é monolítico. Todo enlace se desfaz. Isso torna a realidade um lugar instável, mas fundamentalmente maleável. Em torno tudo é insondável, mas basta que uma coisa toque a outra para que algo se torne manifesto.  
Ainda que o desfecho tenha sido fictício, foi como se dali de dentro daquele sonho suas palavras liberassem a desconfiança, a incerteza, a mágoa, a angústia, o remorso, a saudade. Tudo imaginado, e extremamente manifesto.