Friday, October 09, 2009

O principio de um sorriso

Você não conhece a chuva, não sabe o que significa.

Você faz « ao » e « oh » e não sabe o que isso significa.

Você so fica assim, olhando pra cima, dando risada para o nada… eu é que acho que não tem nada ; mas você, o que vê ?

Duas marionetes cheias de dedos dançam na sua frente, fazendo graça. Você ri, sem saber que é você mesmo que as faz dançar. São suas, as mãos, mas elas ainda não te pertencem.

« Você » é uma palavra que não tem muito sentido. Tudo o que existe é a fome, o incômodo, e as boas sensações do colo e do leite. Quando mama, torna-se o proprio seio ; quando dorme, torna-se o proprio sonho ; quando chora, torna-se lagrima.

Mas ha um principio de sorriso, e no momento em que entrevejo esse sorriso, eu sou « o outro ». Deste simples ato intencional surge a sua unidade. Assim, é você que sorri pra mim !

Sunday, June 28, 2009

A vida em partes

Os “quase trinta”

é aos poucos que chegamos aos trinta. Temos a impressão de que ainda ontem fizemos vinte, ganhamos independência (pelo menos aquela independência « simbolica », imaginaria), pensamos em tudo o que fariamos da vida, agora que responderiamos por nos mesmos. Mas a verdade é que os trinta chegam aos poucos. Ja la pela metade dos vinte nos damos conta de que essa independência, essa responsabilidade de si mesmo, não depende apenas da idade « legal », os famosos « dezoito », ou « vinte e um ». Ela depende muito mais de uma outra questão, que até então não nos havia tomado o espirito, ocupado que estava com questões mais grandiosas… A independência financeira, eis a chave da liberdade! E de repente percebemos que alguma coisa se insinuou naquela idéia de ganhar o mundo, e de muda-lo, transformar o que achamos velho, conservador, criar novas soluções… reescrever a historia é uma ação que deve compartilhar espaço com a obrigação de ganhar a vida. E não necessariamente, mas majoritariamente, pagar as contas significa fazer alguma coisa chata, que não fazia parte dos planos dos « vinte ». é assim que começamos a chegar aos trinta. Certamente existe uma parcela de « graça » na responsabilidade : mobiliar a sala como bem se entende, lavar a louça quando da na telha, voltar de manhã, acordar de tarde, fazer uma festa, brigar com os vizinhos… enfim, essas mimicas da vida de adulto que construimos aos vinte anos.
O periodo sombrio não depende dos numeros… 27, 29… depende de cada um ; mas certamente ele um dia chega… é inevitavel. Cedo ou tarde passamos por aquela impressão de que tudo esta determinado para o resto da vida. Se aos vinte éramos capazes de fazer tudo, de ser o que bem entendêssemos, porque afinal o mundo nos pertencia, à nos, muito mais que à qualquer outra pessoa, aos « quase trinta » nada mais nos pertence. O mundo escorrega pelos dedos feito areia. Tudo parece determinado, estatistico, e de repente nem a historia não faz mais diferença; fazemos o que nossos pais faziam. Compromissos; um trabalho, um casamento, responsabilidades que não fazem muito sentido à luz daquela vontade de transformar a realidade ao redor. Passamos a nos contentar com pequenas alegrias, o par de sapatos que compramos, uma viagem de pacote… tornamo-nos pessoas confortaveis.
E eis que os “quase trinta” estão a um passo dos efetivos, tão esperados, e mais tarde indesejados « trinta ». E ai, o inesperado acontece : o mundo volta a ser mundo, uma realidade dinâmica, cheia de acontecimentos, de esperanças, de criações. Se passamos boa parte dos ultimos três anos nos perguntando « afinal, porque fazer alguma coisa, se tudo ja foi feito ? », revoluções, crianças, uma musica, um quadro, um livro… de repente uma vontade incessante nasce na parte de baixo do estômago, e à cada dia vai aumentando, subindo à garganta. Uma vontade de fazer tudo à nossa maneira.
De certa forma reecontramos a energia da independência. A vida tem dos seus compromissos, fato inegavel e quase necessario para se levar uma vida « em sociedade », ou melhor « nessa sociedade ». Mas surpreendentemente ela nos aparece sob outro contorno : a vida é material maleavel. Do alto de meus « quase e inegaveis trinta » penso que a vida é como uma massa de pão : a gente amassa, amassa, vira e revira para ela crescer.

Thursday, April 30, 2009

recado à pessoa distante

E nessa tardinha sem fim que resolvi te escrever, sem compromisso. Lembra que os dias por aqui tem essa cara de infinito? E apesar da sensação de possuir tudo, de repente é o vazio que se instala, sem aviso. Sempre estivemos de acordo neste ponto; possuir tudo é a mesma coisa do que se encontrar de mãos vazias, não ha como ser diferente... cheguei a duvidar de minha capacidade em te escrever estas poucas linhas. Os dias vão escorrendo, como ja era de praxe quando por aqui esteve. Olho pela janela da frente, por entre as rendas da cortina tão branca quanto clara em neve, e não vejo uma so alma à atravessar a rua. São quatro da tarde, mas o sol ainda parece à pino; esquenta tanto o asfalto que daqui de dentro posso sentir o calor emanando da estrada. Por isso o vazio, todos andam a se proteger dentro das respectivas casas, procurando se mexer apenas para respirar, e ainda assim, um minimo possivel. E provavel que você não sinta falta destas ruas que queimam os pés... E imagino como é a rua que talvez esteja a olhar. De clima temperado, parece. Tão suntuoso olhar uma rua « de clima temperado ». Fico pensando que tudo deve acontecer num exato equilibrio, numa perfeita simetria, a distância entre a janela e o meio da rua, a cor acinzentada do asfalto, até mesmo os passos das pessoas, tudo fazendo parte de uma espécie de cenario onde você leva a sua vida num clima temperado. Por minha parte, eu lembro que quando esteve por aqui, meu espirito não tinha tempo para esse tipo de preocupação... Eu não elocubrava sobre a temperatura do asfalto, ou sobre a largura da rua, e nem olhava pela janela, porque eram tantos os caminhos que suas palavras me abriam, que nem tinha tempo para me preocupar com o mundo real à minha volta. Por aqui faz tanto calor que às vezes parece que sufoco. Espero que esteja tudo bem contigo, o coração e a alma seguindo o ritimo de um clima temperado.
Fico por aqui, sem mais.

Tuesday, April 14, 2009

Friday, April 10, 2009

Conversa com os passarinhos

Dela, diziam que era louca
que piava aos passarinhos
que não tinha palavras na boca
que ja nem era mais desse ninho.

Nunca viram de onde saiu
um dia apareceu, um dia sumiu...
E se não ha ninguém pra lembrar
dos fatos que vou contar
então talvez eu tenha imaginado...
Quem sabe ela nunca existiu!

Numa tarde esfumaçada
em pleno mês de Abril
gozou e nadou saciada
num lago azul anil.

Numa noite de lua cheia
tirou seu vestido surrado
deitou o corpo, faceira
numa imensidão de mato prateado.

No começo do dia gritou
chamando pela alegria
e não sem surpresa constatou :
« o mundo é feito de fantasia!».

Numa confusão de emoções
desregulou os relogios da cidade
andou pela praça, gritando :
« agora é a hora da verdade ! ».

« Nada disso não existe,
nada, nem nenhuma quantidade
e nem dono, e nem dinheiro,
à todos pertence essa cidade ! »

« e mesmo os animais
à nos obedecer e padecer
são seres livres e mortais.
Viva o mundo sem correntes
Viva a vida sem currais! »

Foi o tempo de um instante,
o seu fim foi a prisão.
Mas por um momento infinito
à ouvir todo aquele « não dito »
o povo lhe deu razão.

Cada um é suspenso por um barbante
e repete a existência sem mais.
Mas às vezes pensar na essência,
em tudo o que é incessante,
faz a gente se destacar
do que apenas nasce e jaz.

Thursday, February 19, 2009

Sunday, February 15, 2009

E se em seguida eu pudesse descrever
todo o encanto presente na realidade
eu diria que o simples fato de viver
e de poder enxugar o pranto
é uma prova contundente da eternidade.

Wednesday, January 28, 2009

ser um e outro


Ser um, e seguir nessa condição.

Ser apenas um ser

se insinuando noutros seres.

Ser um ser humano solitario.


Num instante, nesse, inalcançavel

sou eu, e um outro.

Ser incansavel,

sondando, cedendo, sonhando.


Nesse lapso de tempo

sou eu, e um outro,

por apenas um momento,

num mesmo envelope terreno.

Tuesday, January 13, 2009

Destino

ltimamente me olho no espelho e imagino o quão velho serei

Ultimamente me olho no espelho e imagino o quão velho serei. A barba branca, comprida, amarelada, os finos cabelos, o olhar longinquo, e meu corpo que estara aqui. Num momento passo à essa outra visão, terrivel, onde vejo um velho lânguido, sem olhar nenhum, sem consciência. Logo penso que talvez nem mesmo chegue a ser velho, que posso morrer amanhã num acidente de carro, ou aos 40 anos, de uma doença genética. O que me é impossivel pensar é essa pessoa que sou, sem futuro algum. Digo, acredito num nominalismo que aposta nas experiências que construimos no momento mesmo em que vivemos; certamente essas experiências tem uma consequência em nossa existência. Como Sartre, os nominalistas não se fiam à nenhuma essência real, mas à construção do sentido, da essência, da experiência, dos valores, ou seja, da forma como compreendemos a propria existência. Assim, sou cheio de responsabilidades sob aquele velho em que tornar-me-hei um dia. O que não consigo conceber é essa indeterminação - inerente à toda forma de existência – aplicada à minha propria ! Sou eu que construo o velho que vejo em minha imaginação, mas não consigo me livrar da pretenção de que algo me esta reservado… Sou eu que convivo comigo mesmo, e com as inumeras possibilidades que dormem naquilo que chamamos « realidade » ; mas algo nessa existência tem que me ser proprio, meu, à mim destinado! Não posso ser como todos os outros, e continuar à deriva, existindo e fazendo escolhas sem nenhuma razão por tras… Se vou me tornar um « velho sem olhar », que isso me esteja destinado !